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	<title>Pensar Nutrição</title>
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	<description>Combater a desinformação</description>
	<lastBuildDate>Wed, 27 May 2026 13:25:38 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Pensar Nutrição</title>
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		<title>Os nutricionistas, o fact-checking e o combate à desinformação</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/nutricionistas-fact-checking-combate-desinformacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Graça&nbsp;and&nbsp;Maria João Gregório]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 27 May 2026 11:00:58 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaio]]></category>
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					<description><![CDATA[A desinforma&#231;&#227;o na &#225;rea da sa&#250;de compromete a confian&#231;a do p&#250;blico no sistema de informa&#231;&#227;o como um todo, incluindo aqui a confian&#231;a nos seus profissionais.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A desinformação na área da saúde e da alimentação é um tema particularmente relevante. No <a href="https://www.weforum.org/publications/global-risks-report-2024/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Relatório sobre Riscos Globais de 2024</a> do Fórum Económico Mundial, a desinformação e a informação errada foram classificadas como o risco global mais grave a curto prazo.</p>



<p>A <a href="https://www.europarl.europa.eu/RegData/etudes/STUD/2024/754205/IPOL_STU(2024)754205_EN.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">desinformação na área da saúde compromete</a> a confiança do público no sistema de informação como um todo, incluindo aqui a confiança nos seus profissionais. Leva as pessoas a questionarem a integridade das fontes de informação, conduzindo a um círculo vicioso de incerteza. Este círculo vicioso pode acrescentar incerteza a um contexto já de si ansiogénico, amplificando a vulnerabilidade dos cidadãos ao conteúdo de desinformação e impedindo as pessoas de fazerem escolhas informadas ou de encontrarem informações fiáveis quando existe um volume significativo de notícias. Em paralelo, a desinformação na área da saúde tende a polarizar os debates públicos e a acentuar a oposição entre grupos.</p>



<p>Embora a desinformação em saúde já constituísse um problema relevante antes da pandemia, a COVID-19 veio expor, de forma particularmente evidente, o potencial do seu impacto. Simultaneamente, este período permitiu aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos de disseminação da desinformação e as estratégias mais eficazes para combatê-la.</p>



<p>O fact-checking tem sido uma das principais estratégias utilizadas para combater a desinformação, sendo já numerosos os estudos publicados sobre a sua relevância e efetividade.</p>



<p>De modo geral, a evidência aponta para benefícios na correção de informação falsa, mas também existem riscos que não devem ser negligenciados. Apesar de o fact-checking ser geralmente eficaz na redução de crenças falsas, a literatura aponta para possíveis efeitos não intencionais em determinados contextos, incluindo o aumento da familiaridade com alegações falsas, a manutenção da visibilidade pública do tema e a menor eficácia em ambientes fortemente polarizados.</p>



<p>O assunto é complexo. Acresce que as estratégias de combate e mitigação de desinformação necessitam de adaptação contínua à evolução tecnológica e às dinâmicas das redes sociais. Razões mais do que suficientes para refletir sobre a desinformação (informação falsa ou manipulada partilhada com intenção de induzir erro) em alimentação e nutrição.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O fact-checking e sua relevância</h2>



<p>Nos últimos anos, cresceu a produção científica sobre a importância do fact-checking no combate à desinformação, especialmente após o crescimento das fake news nas redes sociais, durante determinados períodos como eleições, a pandemia de COVID-19 e a vacinação ou ainda a desinformação científica/alimentar.</p>



<p>De um modo geral, <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/00936502251363705" target="_blank" rel="noreferrer noopener">existe evidência consistente de que iniciativas de fact-checking</a> podem reduzir crenças falsas e contribuir para melhorar competências de avaliação crítica da informação (literacia mediática). Existem também indícios de que estas práticas podem favorecer perceções de transparência jornalística e confiança na informação científica, embora estes efeitos sejam mais dependentes do contexto e do grau de confiança prévia nas instituições</p>



<p>Trabalhos relevantes de autores como <a href="https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/10584609.2019.1668894" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nathan Walter</a> e colegas que em 2020 realizaram meta-análises de referência sobre o tema e depois de autores como Ethan Porter e <a href="https://www.pnas.org/doi/full/10.1073/pnas.2104235118" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Thomas J Wood</a>, <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0093650219854600" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nathan Walter e Riva Tukachinsky</a> e mais recentemente de <a href="https://zenodo.org/records/17710407" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Bozhena Ivanytska</a> e colegas sugerem que o fact-checking tem um efeito positivo e estatisticamente robusto na correção de crenças falsas, contudo as correções podem ser menos eficazes se a desinformação tiver sido atribuída a uma fonte credível (profissionais de saúde por ex.), se tiver sido repetida várias vezes antes da correção ou se tiver existido um maior intervalo de tempo entre a divulgação da desinformação e a correção. Da mesma forma, a capacidade de corrigir a desinformação política através da verificação de factos é substancialmente atenuada pelas crenças, ideologias e conhecimentos pré-existentes dos participantes, podendo as pessoas continuar a acreditar em informação falsa mesmo após correção.</p>



<p>Estamos a crer que o mesmo poderá acontecer na área da alimentação em temas de alta polarização, como acontece com o efeito do consumo de carne ou com dietas vegetarianas ou ainda o impacto dos alimentos ultraprocessados na saúde. De realçar que estes temas, que mobilizam e polarizam o debate, estão muitas vezes associados a interesses comerciais e económicos mais vastos.</p>



<p>Autores como <a href="https://doi.org/10.1007/s11109-010-9112-2" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Brendan Nyhan e Jason Reifler</a> descreveram em 2010 que as tentativas de intervenção para corrigir notícias falsas ou episódios de desinformação podem falhar ou até reforçar crenças erradas em grupos ideologicamente comprometidos, lançando o debate sobre o “Backfire effect”. Estudos posteriores mostraram que o “Backfire Effect” é menos frequente do que se pensava inicialmente, mas é algo que vale a pena não se esquecer. Trabalhos experimentais mais recentes de autores como <a href="https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/20563051231179694" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ingrid Bachmann e Sebastián Valenzuela</a> confirmaram que certos formatos de fact-checking são eficazes na redução das perceções erradas das pessoas, no entanto, estes efeitos positivos na redução das crenças têm um custo: em comparação com os grupos de controlo, os utilizadores expostos a verificações de factos políticos confiam menos nas notícias e consideram os meios de comunicação mais tendenciosos, especialmente após lerem correções que desmentem desinformação favorável às suas atitudes. Desta forma, a desinformação não só influencia as convicções das pessoas, como também pode minar a confiança do público nos meios de comunicação social e em instituições de referência, como a Organização Mundial da Saúde.</p>



<p>Um dos aspetos mais importantes relacionados com o fact-cheking é a sua persistência no tempo. Alguns <a href="https://academic.oup.com/joc/article-abstract/76/1/36/8200807?redirectedFrom=fulltext" target="_blank" rel="noreferrer noopener">trabalhos</a> sugerem que os efeitos do fact-checking desaparecem em grande parte no prazo de duas semanas e não produzem repercussões duradouras nas crenças. <a href="https://arxiv.org/abs/2412.13280" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Outros e em concreto, quando o fact-checking é sobre factos políticos</a> argumentam que este processo é muito incompleto, atingindo apenas uma parte ínfima das narrativas proeminentes de desinformação. E que, mesmo quando partilhadas, as verificações de factos são quase sempre disseminadas dentro das comunidades partidárias, em vez de entre elas.</p>



<p>Será que este <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0950329321000161?via%3Dihub" target="_blank" rel="noreferrer noopener">efeito</a> também não poderá ser observado na área da alimentação e da nutrição, onde a circulação de desinformação parece ser particularmente favorecida por mecanismos de confirmação identitária e de confirmação de vieses, nos quais os utilizadores procuram sobretudo conteúdos que validem crenças, estilos de vida ou práticas alimentares previamente adotadas, em detrimento de informação objetiva orientada para a tomada de decisão?</p>



<h2 class="wp-block-heading">A especificidade das Ciências da Nutrição</h2>



<p>De facto, <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0924224421001254?via%3Dihub" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a literatura científica</a> sugere que a nutrição e a alimentação constituem uma das áreas mais vulneráveis à desinformação digital. Por várias razões. Para muitos cidadãos, a alimentação não é percecionada apenas como uma questão técnica ou científica, capaz de influenciar a saúde, mas também como uma questão moral, cultural, ideológica e identitária. Assim, quem procura informação tende, muitas vezes, a procurar conteúdos que validem estilos de vida já adotados, reforcem convicções prévias e confirmem práticas alimentares específicas, o que torna esta uma área de fácil apropriação para influenciar. Por outro lado, devido à forte mediatização da alimentação e aos interesses comerciais em jogo, trata-se de um espaço de grande interesse para promover opiniões e narrativas favoráveis a produtos ou modelos de consumo específicos.</p>



<p>Este espaço de apropriação e confronto com a ciência — que também não é neutra — manifesta-se com particular frequência na relação entre consumo alimentar e doença, na qual a complexidade dos padrões alimentares, da composição dos alimentos e da multicausalidade das doenças associadas à alimentação dificulta a formulação de conclusões ou vereditos definitivos.</p>



<p>Este é um espaço onde a desinformação cresce. Apesar de hoje reunirmos evidência sobre a probabilidade elevada de existir relação entre o consumo alimentar (por exemplo, de carne processada, de bebidas açucaradas ou alcoólicas) e o aparecimento de doença, nomeadamente através de estudos observacionais, da compreensão dos mecanismos biológicos e de revisões sistemáticas e meta-análises, a robustez da associação depende da consistência de múltiplas associações e do seu sentido. Essa complexidade é facilmente explorada pela desinformação e pela criação de dúvida.</p>



<p>Um exemplo destas especificidades na área alimentar foi o <a href="https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(19)32526-7/fulltext" target="_blank" rel="noreferrer noopener">confronto entre o relatório EAT-Lancet” e as campanhas pró-carne como a #Yes2Meat</a>. Apesar de a evidência científica estar do lado do relatório e dos seus signatários, que sugeria a necessidade de reduzir globalmente o consumo de carne para obter mais saúde e proteger o ambiente, esta mensagem foi muito contestada nas redes sociais e incapaz de se sobrepor às mensagens a favor da manutenção do consumo de carne.</p>



<p>Apesar de as recomendações propostas no relatório terem uma base científica sólida, ao ignorarem a identidade cultural, a tradição alimentar e se basearem excessivamente em restrições normativas, não conseguiram fazer frente a uma estratégia de relações públicas ágil, muito agressiva e fortemente financiada pela indústria da carne. As campanhas pró-carne e os influenciadores envolvidos contornaram a ciência, apelando à emoção, conseguindo enquadrar as recomendações como um ataque à liberdade individual e à livre escolha por parte de uma certa elite científica.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Como melhorar o combate à desinformação?</h2>



<p>A <a href="https://iris.who.int/server/api/core/bitstreams/97c082f1-4d00-4062-8bf2-0514c1a755b6/content" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Organização Mundial da Saúde defende que o combate à desinformação deve assentar numa abordagem integrada</a>, baseada não apenas na correção de informação falsa, mas também na construção da confiança pública, da literacia mediática e da participação comunitária. Outros autores como <a href="https://zenodo.org/records/17710407" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Bozhena I e colaboradores</a> sugerem a necessidade de apoiar estrategicamente redes independentes de verificação de factos, reforçam a necessidade de se integrar o investimento na literacia digital e integrar o pensamento crítico nos programas curriculares; e ainda a necessidade de apoiar iniciativas nacionais de cibersegurança no âmbito das políticas públicas.</p>



<p>Uma das sugestões centrais é a necessidade de melhorar a qualidade do fact-checking. A capacidade de corrigir informação falsa ou enganosa e a minimização dos riscos dependem, em grande medida, da forma como o fact-checking é concebido e comunicado, bem como da rapidez da resposta. Quanto mais tempo uma informação falsa circula sem contraditório, maior tende a ser a sua perceção de credibilidade. A desconstrução de crenças falsas deve ainda evitar estratégias de ridicularização ou confronto agressivo nas redes sociais, uma vez que estas podem aumentar a polarização, reforçar identidades grupais e aprofundar a desconfiança relativamente às instituições de referência.</p>



<p>O fact-checking organizado e institucionalizado em Portugal começou realmente a consolidar-se entre 2018 e 2019, com <a href="https://poligrafo.sapo.pt/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o jornal Polígrafo</a>, o primeiro jornal digital português dedicado exclusivamente à verificação de factos, e, posteriormente, com o programa televisivo Polígrafo/SIC, descrito como o primeiro programa de televisão português dedicado exclusivamente ao fact-checking.</p>



<p>Para além do fact-checking, têm sido exploradas outras estratégias, como a comunicação descentralizada e a utilização de <a href="https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12797484/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">microinfluenciadores</a>, que, em determinados contextos, podem revelar-se mais eficazes do que campanhas nacionais de comunicação. Estas abordagens assentam na utilização de interlocutores da comunidade local, percecionados como próximos e credíveis, com maior capacidade de gerar confiança e de amplificar mensagens junto de públicos específicos.</p>



<p>Outra possibilidade é a sensibilização de influenciadores digitais e a <a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0747563225003437?via%3Dihub" target="_blank" rel="noreferrer noopener">integração de práticas de reflexão crítica</a> no seio destes grupos, como forma de reduzir a propagação de informação de má qualidade em saúde. Esta foi a estratégia utilizada recentemente pela Direção-Geral de Saúde através do “Guia para influenciadores digitais e anunciantes &#8211; Informação sobre as regras e boas práticas na comunicação comercial de substitutos de leite materno e alimentos para bebés e crianças pequenas no meio digital.”</p>



<p>Neste modelo de abordagem do problema, diversos artigos sugerem a utilização de profissionais de referência, nomeadamente profissionais de nutrição, investigadores, comunicadores e educadores, como divulgadores regulares de informação de qualidade e mitigadores da <a href="https://journals.sagepub.com/doi/epub/10.1177/00027162221087686" target="_blank" rel="noreferrer noopener">desinformação</a> (<a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1386505624001412?via%3Dihub" target="_blank" rel="noreferrer noopener">e ainda aqui</a>). Estes especialistas, podem desempenhar um papel fundamental na avaliação da informação sobre alimentação e nutrição à luz da evidência científica e como referência para interagir com os cidadãos. Contudo, três aspetos merecem reflexão. A necessidade de melhorar a capacidade de comunicação dos profissionais de nutrição. Frequentemente, a comunicação em saúde é excessivamente técnica, pouco acessível ou pouco apelativa. A comunicação eficaz deve ser clara, simples, emocionalmente relevante, visual e facilmente partilhável. Outro aspeto importante é a necessidade de evitar as armadilhas do confronto científico nas plataformas digitais, nas quais raramente se ganha, dando preferência à divulgação de informação de qualidade. Por fim, a necessidade dos profissionais de saúde que comunicam sobre nutrição e alimentação, nomeadamente os nutricionistas, indicarem com clareza a existência ou não de <a href="https://www.scielo.br/j/csc/a/hsF8PMsZDw8cPctzN6yTxsw/?lang=pt" target="_blank" rel="noreferrer noopener">conflito de interesses</a> sempre que comunicam publicamente.</p>



<p>Para além dos profissionais de saúde, as <a href="https://revistas.usp.br/organicom/pt_BR/article/view/225113/209467" target="_blank" rel="noreferrer noopener">instituições públicas de referência</a> como universidades e instituições de saúde devem ter um papel importante no combate à desinformação, assumindo na sua missão e objetivos, a divulgação de ciência e a reflexão sobre este tema. E criando condições para que o conhecimento existente e produzido no interior destas instituições seja capaz de chegar aos cidadãos e, de forma regular e capilar, a outras instituições da sociedade civil. Um laboratório experimental deste processo na academia tem sido, desde 2019, o portal “Pensar Nutrição – Combater a desinformação” da FCNAUP.</p>



<p>Outra dimensão do combate à desinformação passa pelo reforço da literacia científica, mediática e digital da população. Tal implica melhorar a capacidade dos cidadãos para interpretar estudos científicos, distinguir evidência de opinião, compreender o conceito de consenso científico e verificar a credibilidade das fontes de informação, sendo que as instituições públicas de saúde e academia devem participar ativamente neste esforço. Entre as estratégias de reforço da literacia científica, tem ganho relevância o conceito de <a href="https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK609022/?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="noreferrer noopener">prebunking</a>, uma estratégia preventiva que procura antecipar a desinformação, preparando os cidadãos para reconhecer técnicas de manipulação e narrativas enganosas antes de estas serem difundidas. Ao invés de apenas corrigir informação falsa depois da sua circulação, o prebunking funciona como uma espécie de “inoculação cognitiva”, <a href="https://www.thelancet.com/action/showPdf?pii=S2468-2667%2824%2900031-8" target="_blank" rel="noreferrer noopener">um formato preventivo</a> capaz de regularmente aumentar a resistência das pessoas à desinformação.<br></p>



<p>Por fim, não deve ser desconsiderada a necessidade de regulação da disseminação de informações falsas ou enganosas sobre nutrição nas plataformas digitais e redes sociais, assegurando, naturalmente, o equilíbrio entre a proteção da saúde pública, a liberdade de expressão e a preservação da confiança pública. Se cresce a regulação sobre a comunicação dos profissionais de nutrição nos formatos digitais, nomeadamente através das ordens profissionais e códigos de ética, faz sentido que, em paralelo, todos aqueles que comunicam sobre os mesmos temas possam ser igualmente verificados e até sancionados quando colocam em causa a saúde dos cidadãos.</p>



<p>Num contexto em que a informação circula mais depressa do que a sua verificação e em que a autoridade é frequentemente confundida com visibilidade, o papel dos nutricionistas ultrapassa hoje a dimensão exclusivamente assistencial. O combate à desinformação alimentar e nutricional exige profissionais capazes não só de interpretar evidência científica, mas também de comunicar com clareza, contextualizar recomendações e participar ativa mas refletida nos espaços digitais onde as decisões dos cidadãos são influenciadas. O desafio está agora em criar condições para que esta participação possa ser efetiva e benéfica para os cidadãos reforçando a confiança nos profissionais envolvidos e reduzindo os riscos envolvidos.</p>
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		<title>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas &#8211; 5º episódio</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/conta-me-como-foi-50-anos-conversas-5o-episodio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pensar Nutrição]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 22 May 2026 09:23:18 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[50 + 50]]></category>
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					<description><![CDATA[Mafalda Almeida entrou na FCNAUP em 2019 e foi presidente da Associa&#231;&#227;o de Estudantes de 2021 a 2023, j&#225; nas novas instala&#231;&#245;es da Casa da Nutri&#231;&#227;o, no Campo Alegre. &#201; a mais nova nutricionista dos cinco podcasts.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Uma viagem de vivências e de memórias sonoras contada por antigos presidentes da Associação de Estudantes da FCNAUP, que atravessam as décadas de 70/80 do século passado até aos dias de hoje e ao século XXI.&nbsp;<strong>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas&nbsp;</strong>assinala os 50 anos da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP). </p>



<p>Cada episódio inclui uma playlist de temas de cada década: Pink Floyd, The Clash, Rui Veloso, GNR, Coldplay, Kendrick Lamar ou, entre outros, Billie Eilish.</p>



<p><strong>Entrevistas:&nbsp;</strong>Nuno Borges, docente e presidente do Conselho Científico da FCNAUP.</p>



<p><strong>Sonoplastia:</strong>&nbsp;Paulo Gusmão (Universidade do Porto)</p>



<p><strong>Ideia original:</strong>&nbsp;Pedro Graça (FCNAUP)</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Mafalda Almeida (5º episódio)</strong></h2>



<p>Natural de Coimbra, entrou na FCNAUP em 2019 e foi presidente da Associação de Estudantes em dois mandatos (2021/2022 e 2022/2023) já nas novas instalações da Casa da Nutrição, no Campo Alegre. É a mais nova nutricionista dos cinco podcasts.</p>



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<iframe title="Spotify Embed: Música e Nutrição - Anos 2020" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/2mJuFBNFzoJUSkp1mW525z?si=hJaGKE7QTQqOBApKoHs8cA&amp;utm_source=oembed"></iframe>
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<p></p>
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		<title>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas &#8211; 4º episódio</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/conta-me-como-foi-50-anos-em-5-conversas-4o-episodio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pensar Nutrição]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 15 May 2026 13:23:24 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[50 + 50]]></category>
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					<description><![CDATA[Natural do Porto, entrou no curso de Ci&#234;ncias da Nutri&#231;&#227;o em 2009 e presidiu &#224; Associa&#231;&#227;o de Estudantes no ano letivo 2011/2012. Com ele, recuamos &#224; d&#233;cada 2010-2020 e ao tempo em que a FCNAUP funcionava provisoriamente na FEUP.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Uma viagem de vivências e de memórias sonoras contada por antigos presidentes da Associação de Estudantes da FCNAUP, que atravessam as décadas de 70/80 do século passado até aos dias de hoje e ao século XXI.&nbsp;<strong>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas&nbsp;</strong>assinala os 50 anos da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP). </p>



<p>Cada episódio inclui uma playlist de temas de cada década: Pink Floyd, The Clash, Rui Veloso, GNR, Coldplay, Kendrick Lamar ou, entre outros, Billie Eilish.</p>



<p><strong>Entrevistas:&nbsp;</strong>Nuno Borges, docente e presidente do Conselho Científico da FCNAUP.</p>



<p><strong>Sonoplastia:</strong>&nbsp;Paulo Gusmão (Universidade do Porto)</p>



<p><strong>Ideia original:</strong>&nbsp;Pedro Graça (FCNAUP)</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>António Teixeira (4º episódio)</strong></h2>



<p>Natural do Porto, entrou no curso de Ciências da Nutrição em 2009 e presidiu à Associação de Estudantes no ano letivo 2011/2012. Com ele, recuamos à década 2010-2020 e ao tempo em que a FCNAUP funcionava provisoriamente na FEUP.</p>



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			</item>
		<item>
		<title>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas &#8211; 3º episódio</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/conta-me-como-foi-50-anos-em-5-conversas-3o-episodio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pensar Nutrição]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 08 May 2026 10:00:49 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[50 + 50]]></category>
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					<description><![CDATA[Com o nutricionista transmontano e antigo presidente da AEFCNAUP, natural de Chaves, recordamos a d&#233;cada de 2000 e a entrada da Faculdade e do Porto no s&#233;culo XXI.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Uma viagem de vivências e de memórias sonoras contada por antigos presidentes da Associação de Estudantes da FCNAUP, que atravessam as décadas de 70/80 do século passado até aos dias de hoje e ao século XXI.&nbsp;<strong>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas&nbsp;</strong>assinala os 50 anos da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP). </p>



<p>Cada episódio inclui uma playlist de temas de cada década: Pink Floyd, The Clash, Rui Veloso, GNR, Coldplay, Kendrick Lamar ou, entre outros, Billie Eilish.</p>



<p><strong>Entrevistas:&nbsp;</strong>Nuno Borges, docente e presidente do Conselho Científico da FCNAUP.</p>



<p><strong>Sonoplastia:</strong>&nbsp;Paulo Gusmão (Universidade do Porto)</p>



<p><strong>Ideia original:</strong>&nbsp;Pedro Graça (FCNAUP)</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Nuno Palas (3º episódio)</strong></h2>



<p>Com o nutricionista transmontano e antigo presidente da AEFCNAUP, natural de Chaves, recordamos a década de 2000 e a entrada da Faculdade e do Porto no século XXI.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
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<iframe title="Spotify Embed: Música e Nutrição - Anos 2000" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/4QrxAioeCd5n6x23Q0Gxpi?si=w1bk3wTVS5m51XezjowUZg&amp;utm_source=oembed"></iframe>
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			</item>
		<item>
		<title>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas &#8211; 2º episódio</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/conta-me-como-foi-50-anos-em-5-conversas-2o-episodio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pensar Nutrição]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 03 May 2026 13:13:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[50 + 50]]></category>
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					<description><![CDATA[Com Helena &#193;vila que ingressou no Curso de Ci&#234;ncias da Nutri&#231;&#227;o em 1987. Foi presidente da Associa&#231;&#227;o de Estudantes no in&#237;cio da d&#233;cada de 90 numa &#233;poca de grande efervesc&#234;ncia acad&#233;mica.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Uma viagem de vivências e de memórias sonoras contada por antigos presidentes da Associação de Estudantes da FCNAUP, que atravessam as décadas de 70/80 do século passado até aos dias de hoje e ao século XXI.&nbsp;<strong>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas&nbsp;</strong>assinala os 50 anos da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP). </p>



<p>Cada episódio inclui uma playlist de temas de cada década: Pink Floyd, The Clash, Rui Veloso, GNR, Coldplay, Kendrick Lamar ou, entre outros, Billie Eilish.</p>



<p><strong>Entrevistas:&nbsp;</strong>Nuno Borges, docente e presidente do Conselho Científico da FCNAUP.</p>



<p><strong>Sonoplastia:</strong>&nbsp;Paulo Gusmão (Universidade do Porto)</p>



<p><strong>Ideia original:</strong>&nbsp;Pedro Graça (FCNAUP)</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Helena Ávila (2º episódio)</strong></h2>



<p>De alma açoriana, ingressou no Curso de Ciências da Nutrição em 1987. Foi presidente da Associação de Estudantes no início da década de 90, durante três mandatos, numa época de grande efervescência académica.</p>



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<iframe title="Spotify Embed: Música e Nutrição - Anos 1990" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/2qyD063k3iyfJMTPS5ssBV?si=lWMATFlbQZWcmGWU5puokw&amp;utm_source=oembed"></iframe>
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			</item>
		<item>
		<title>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas &#8211; 1º Episódio</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/conta-me-como-foi-50-anos-5-conversas-1-episodio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pensar Nutrição]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 26 Apr 2026 12:49:14 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[50 + 50]]></category>
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					<description><![CDATA[Com Artur Melo e Castro, que entrou no antigo Curso Superior de Nutricionismo em 1979. Enquanto presidente da Associa&#231;&#227;o de Estudantes, recorda o in&#237;cio da d&#233;cada de 80.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Uma viagem de vivências e de memórias sonoras contada por antigos presidentes da Associação de Estudantes da FCNAUP, que atravessam as décadas de 70/80 do século passado até aos dias de hoje e ao século XXI.&nbsp;<strong>Conta-me Como Foi: 50 anos em 5 conversas&nbsp;</strong>assinala os 50 anos da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP). </p>



<p>Cada episódio inclui uma playlist de temas de cada década: Pink Floyd, The Clash, Rui Veloso, GNR, Coldplay, Kendrick Lamar ou, entre outros, Billie Eilish.</p>



<p><strong>Entrevistas:&nbsp;</strong>Nuno Borges, docente e presidente do Conselho Científico da FCNAUP.</p>



<p><strong>Sonoplastia:</strong>&nbsp;Paulo Gusmão (Universidade do Porto)</p>



<p><strong>Ideia original:</strong>&nbsp;Pedro Graça (FCNAUP)</p>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Artur Melo e Castro (1º episódio)</strong></h2>



<p>Natural de Marco de Canavezes, entrou no antigo Curso Superior de Nutricionismo em 1979. Enquanto presidente da Associação de Estudantes, recorda o início da década de 80.</p>



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<iframe title="Spotify Embed: 1. Artur Melo e Castro" style="border-radius: 12px" width="100%" height="152" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/episode/38jU8rzMnddIHEMe5mELyH?si=9c294be8743c40f9&amp;utm_source=oembed"></iframe>
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<iframe title="Spotify Embed: Musica e Nutrição - Anos 1980" style="border-radius: 12px" width="100%" height="352" frameborder="0" allowfullscreen allow="autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture" loading="lazy" src="https://open.spotify.com/embed/playlist/0h9eaUe49re7Rk0z5aaJUD?si=OdGCmQN0Q0qf5T4B_pR8AQ&amp;utm_source=oembed"></iframe>
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<p></p>
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		<item>
		<title>50 mais 50, O futuro</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/50-mais-50-o-futuro/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 14 Apr 2026 18:19:40 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[50 + 50]]></category>
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					<description><![CDATA[O futuro traz 50 anos de hist&#243;ria, mas nem por isso deixa de ser ousado e irreverente como em 1976, ap&#243;s a revolu&#231;&#227;o social, cultural e pol&#237;tica.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há 50 anos, um conjunto de personalidades decidiu escrever o futuro e criou o <a href="https://www.up.pt/fcnaup/pt/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Curso de Nutricionismo na Universidade do Porto</a>, que viria a ser o embrião de uma nova profissão em Portugal e de um modo novo e disruptivo de olhar para a relação entre a alimentação e a saúde humana no nosso país</p>



<p>Uma forma de comemoramos cinco décadas deste percurso notável na sociedade portuguesa e honrarmos a memória destes visionários é precisamente olharmos de novo para a frente e em conjunto podermos pensar que futuro queremos construir. Este novo futuro carrega agora 50 anos de história, mas não é por isso que não pode ser ousado e irreverente como o foi em 1976, após uma revolução social, cultural e política que mudou a vida do país.</p>



<p>Aliás, só seremos futuro, se soubermos continuar a liderar a inovação, a fazer diferente e melhor e a mudar coisas que sempre foram feitas assim…porque era assim. Até porque o mundo nestes últimos 50 anos acelerou e as mudanças, que sempre aconteceram, estão a acontecer agora a uma velocidade superior.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Olhar para o futuro significa, por isso, observar o mundo e as suas novas velocidades</h2>



<p>Continuamos a abrir a boca pelas mesmas razões que o fazíamos no passado, por prazer, por socialização, por necessidade biológica ou por cultura, mas agora afetados nestas escolhas por um sistema alimentar cada vez mais longínquo, mas complexo e mais influenciado por fatores económicos e políticos que temos mais dificuldade em controlar.</p>



<p>Em paralelo, as diferenças sociais e económicas continuam a explicar diferenças significativas no acesso a alimentos saudáveis. Hoje o excesso calórico a baixo custo substituiu a escassez calórica nas camadas mais desfavorecidas ainda prevalente nos anos 70 do século passado. Mas o gradiente social continua a determinar as escolhas menos saudáveis e a desnutrição continua a afetar gravemente os mais desfavorecidos.</p>



<p>O mesmo se passa com o acesso à informação para poder tomar decisões. A informação de qualidade e de fácil compreensão continua a não chegar a quem necessita, já não por escassez de informação de qualidade, mas agora por abundância de informação de má qualidade. E pela incapacidade crescente de se distinguir o que são fontes credíveis ou apoios à tomada de decisão produzidos de forma errada.</p>



<p>Hoje sabemos mais sobre como as nossas escolhas alimentares diárias afetam a saúde do planeta. E como a saúde do planeta irá determinar, cada vez mais, a nossa alimentação e logo a nossa saúde.</p>



<p>Apesar do desenvolvimento tecnológico, a compreensão dos alimentos e da sua composição e de como interagem com o nosso organismo continua por acontecer. Porque, entretanto, os alimentos são cada vez mais processados e integram cada vez mais ingredientes.</p>



<p>A sociedade está, pois, muito diferente e a nutrição e os nutricionistas do futuro terão de ser diferentes ou não serão parte deste futuro.</p>



<p>O desafio que nos é colocado é construir uma profissão atenta ao mundo e capaz de operar conjuntamente a mudança nos diferentes níveis onde opera, para que a profissão continue a ser relevante e possa contribuir para a saúde e bem-estar do ser humano e do planeta.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p>O futuro passará pela compreensão dos sistemas alimentares globais, pela capacidade de ser uma voz ativa e audível num mundo ruidoso e global (como o fazer?), pelo conhecimento profundo do alimento e da tecnologia que o modifica cada vez mais, pelo conhecimento desta relação entre a composição do alimento e a saúde humana ao nível individual, tudo isto sem perder a capacidade de compreender e introduzir na prática diária, o imperativo ético de combater as desigualdades provocadas pela incapacidade de aceder a alimentos saudáveis, de preservar as identidades alimentares de cada geografia e a biodiversidade associada e a de proteger o nosso planeta e seus ecossistemas que são o principal garante da nossa saúde e qualidade de vida.</p>
</blockquote>



<p>Os tempos da nutrição irão obrigar a trabalhar em equipas multidisciplinares, a não olhar às fronteiras definidas nos mapas, a integrar a tecnologia e a ética alimentar na atividade diária porque o sistema alimentar e os problemas ambientais e sociais serão cada vez mais globais, mas onde e apesar de tudo o ser humano continuará a ser o mesmo de há milhares de anos.</p>



<p>Esperamos que este espaço de discussão nos ajude a pensar no desenvolvimento de uma profissão que, enquanto o ser humano continuar a abrir a boca, terá sempre futuro.</p>



<p>Pedro Graça<br>Diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto</p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O impacto do petróleo no preço dos alimentos e estratégias de mitigação</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/o-impacto-do-petroleo-no-preco-dos-alimentos-e-estrategias-de-mitigacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Graça&nbsp;and&nbsp;Maria João Gregório]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 08 Mar 2026 16:11:43 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaio]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://pensarnutricao.pt/?p=2597</guid>

					<description><![CDATA[A que se deve esta subida dos pre&#231;os dos alimentos? Como &#233; que o pre&#231;o do petr&#243;leo influencia tanto o sistema alimentar? Todos os alimentos ser&#227;o afetados de igual forma? A descida do IVA nos alimentos poder&#225; resolver o problema?&#160;]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Na próxima segunda-feira, o preço dos combustíveis irá sofrer um aumento histórico. Esta alteração súbita poderá ter um grande impacto no preço dos alimentos e no orçamento de muitas famílias, em especial das mais desfavorecidas, com eventuais consequências no acesso aos alimentos e qualidade da alimentação</p>



<p>A que se deve esta subida dos preços dos alimentos? Como é que o preço do petróleo influencia tanto o sistema alimentar? Todos os alimentos serão afetados de igual forma? A descida do IVA nos alimentos poderá resolver o problema?&nbsp;</p>



<p>Estas são questões que debatemos frequentemente quando ensinamos Política Nutricional aos nossos estudantes na FCNAUP, mas que merecem, nestes dias particulares um debate alargado a toda a nossa comunidade. Neste curto ensaio para o «Pensar Nutrição», tentamos dar uma resposta resumida a estas perguntas, para uma melhor compreensão das políticas públicas em Portugal e da sua importância no pensamento dos profissionais de nutrição.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Da energia ao prato: como o aumento do preço do petróleo influencia o preço dos alimentos </h2>



<p>Antes da industrialização agrícola do século XX, a maior parte da energia utilizada na produção alimentar provinha do trabalho humano, da força animal e da energia solar captada pelas plantas. Consequentemente, o consumo de energia fóssil era praticamente inexistente na produção agrícola tradicional.</p>



<p>A dependência do petróleo começou a consolidar-se nas primeiras décadas do século XX, com a difusão de maquinaria agrícola movida a combustíveis fósseis. A introdução de tratores, alfaias e outros equipamentos mecanizados permitiu aumentar a produtividade e reduzir a necessidade de mão de obra agrícola. Este processo, acelerou-se após a Primeira Guerra Mundial, quando muitas das tecnologias desenvolvidas para fins militares foram adaptadas à agricultura. Entre estas, encontravam-se fertilizantes sintéticos produzidos a partir de gás natural e pesticidas derivados de processos petroquímicos.&nbsp;</p>



<p>A produção de fertilizantes nitrogenados baseia-se principalmente no processo industrial conhecido como Processo Haber‑Bosch, que permite sintetizar amoníaco a partir de azoto atmosférico e hidrogénio. Este processo consome grandes quantidades de energia e utiliza frequentemente gás natural como matéria-prima energética. Como resultado, a fertilização intensiva dos solos está diretamente ligada ao consumo de combustíveis fósseis. Fritz Haber desenvolveu, por volta de 1909, o método laboratorial para sintetizar amoníaco (NH₃) a partir de azoto (N₂) da atmosfera e hidrogénio (H₂) sob condições de alta temperatura e alta pressão e Carl Bosch transformou esta descoberta científica num processo industrial em grande escala a partir de 1920. Graças a essa industrialização, o processo passou a ser utilizado mundialmente para produzir fertilizantes nitrogenados e Fritz Haber recebeu o Prémio Nobel da Química em 1918.</p>



<p>Atualmente, o processo Haber-Bosch é utilizado praticamente em todo o mundo, pois cerca de 80–90% da produção global de amoníaco destina-se à fabricação de fertilizantes, sendo a sua utilização particularmente intensa em regiões com agricultura altamente intensiva ou com grande produção agrícola.&nbsp;<a href="https://www.nature.com/articles/ngeo325" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estima-se que cerca de metade da produção alimentar mundial atual dependa de fertilizantes produzidos através do processo Haber-Bosch&nbsp;(1).</a>&nbsp;</p>



<p>Após os anos 40, a transformação estrutural dos sistemas agrícolas acelerou-se. A agricultura adotou um modelo industrial caracterizado pelo uso intensivo de energia fóssil, mecanização e corretores químico dos solos. Este processo foi reforçado por políticas públicas, programas de modernização agrícola e pela expansão de mercados agrícolas internacionais.</p>



<p>A Revolução Verde, iniciada nas décadas de 1940 e 1950, incentivou a utilização de variedades de cereais e outras plantas de maior rendimento, a expansão da irrigação e o uso intensivo de fertilizantes e pesticidas químicos. Embora tenha contribuído para aumentos significativos da produção alimentar global, a Revolução Verde também aprofundou a dependência da agricultura em relação aos combustíveis fósseis.</p>



<p>Também os pesticidas e herbicidas dependem em grande parte da indústria petroquímica. Muitos destes produtos são sintetizados a partir de compostos derivados do petróleo, sendo amplamente utilizados para controlar pragas, doenças e plantas infestantes. A sua utilização tornou-se particularmente comum após a Segunda Guerra Mundial, quando diversos compostos químicos desenvolvidos inicialmente para fins militares foram adaptados para uso agrícola.</p>



<p>Além disso, o petróleo é fundamental para outras etapas da cadeia alimentar, como a produção de plásticos utilizados em embalagens, o fabrico de equipamentos agrícolas e o transporte de alimentos ao longo de grandes distâncias. Globalmente, o sistema alimentar contemporâneo é muito dependente dos combustíveis fósseis.&nbsp;<a href="https://futureoffood.org/wp-content/uploads/2023/11/ga_food-energy-nexus_report.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Estima-se que cerca de 15% do consumo global de combustíveis fósseis esteja associado à produção, processamento, transporte e consumo de alimentos, enquanto o sistema alimentar como um todo utiliza cerca de 30% da energia mundial (2).</a>&nbsp;A maior parte dessa energia é consumida nas etapas pós-produção — processamento industrial, embalagem, transporte, armazenamento e distribuição — refletindo a crescente complexidade e globalização dos atuais sistemas alimentares.</p>



<p>Howard T. Odum foi um dos primeiros investigadores nos anos 1960 e 1970, a analisar os sistemas agrícolas, demonstrando que a agricultura moderna dependia cada vez mais de energia externa proveniente de combustíveis fósseis. Ele provou que, sem a presença de energia do petróleo (fertilizantes, maquinaria, transporte), o sistema alimentar atual colapsaria. Em 1973, publica um dos seus textos mais emblemáticos – “Energy, Ecology and Economics&#8221; (3) onde demonstra como a &#8220;revolução verde&#8221; foi, na verdade, a substituição de trabalho humano e solar por combustíveis fósseis.&nbsp;É dele a célebre frase: &#8220;Industrial man no longer eats potatoes made from solar energy; now he eats potatoes partly made of oil” (4).&nbsp;E de facto, e em média, nos sistemas alimentares industrializados, são utilizadas aproximadamente 10 calorias de energia fóssil para produzir 1 caloria de alimento.&nbsp;</p>



<p>De um modo geral, as culturas de cereais e oleaginosas produzidas em larga escala em sistemas agrícolas industriais são as que apresentam maior dependência de combustíveis fósseis e de derivados do petróleo. Por outro lado, uma grande parte dos cereais produzidos não é consumida diretamente pelos seres humanos, mas sim utilizada como ração animal. Produções agrícolas como milho, soja e trigo são fundamentais para alimentar gado, aves e suínos em sistemas pecuários intensivos. Estima-se que cerca de um terço da produção mundial de cereais seja destinada à alimentação animal.&nbsp;<a href="https://docs.un.org/en/e/2024/45/Add.1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">No caso da soja, a proporção é ainda maior: aproximadamente 70–80% da produção global de soja é transformada em rações (5).</a>&nbsp;Com a procura crescente de carne e outras proteínas de origem animal esta dependência tenderá a aumentar.</p>



<p>Por fim, os preços elevados do petróleo tornam a produção de biocombustíveis (como etanol de milho ou biodiesel de soja) mais lucrativa. Isso desvia colheitas que seriam destinadas à alimentação humana para o setor energético, reduzindo a oferta de alimentos e elevando o seu preço. Se a isto juntarmos a especulação bolsista aquando da subida do petróleo — interpretada pelos investidores como um indicador de inflação futura, atraindo capital especulativo para os mercados de futuros onde se transacionam contratos de compra e venda de matérias-primas agrícolas (como o milho ou o trigo) para entrega em datas posteriores — poderá gerar-se um efeito de bola de neve.</p>



<p>Estas são algumas das razões que explicam porque existe uma correlação histórica muito forte entre o preço do petróleo e o Índice de Preços de Alimentos da FAO (FFPI). Estima-se que, em certos períodos, até 93% da variação nos preços globais dos alimentos pode ser explicada pelas mudanças no preço do petróleo.</p>



<p>Por outro lado, diferentes grupos de alimentos reagem com diferentes intensidades e velocidades à subida do petróleo. De acordo com os dados mais recentes&nbsp;<a href="https://www.fao.org/worldfoodsituation/foodpricesindex/en/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Índice de Preços de Alimentos da FAO de fevereiro/março de 2026</a>&nbsp;(6), os óleos vegetais foram os que subiram mais rapidamente (+ 3,3% em fevereiro) pois quando o petróleo sobe, a procura por biodiesel aumenta, desviando óleos (como soja e colza) do setor alimentar para o energético. Também a produção de cereais é altamente dependente de fertilizantes nitrogenados (derivados do gás/petróleo) e do combustível para colheita e transporte internacional e por isso serão muito afetados, bem como as carnes, pois a subida do petróleo encarece a ração (milho e soja) e o transporte refrigerado da cadeia de frio.</p>



<p>Portugal é um dos países que tem uma das cadeias de distribuição mais dependentes do transporte rodoviário na Europa. Como opera com margens baixas e é altamente sensível ao preço do gasóleo, o impacto no preço dos alimentos irá ser visível. Por outro lado, importamos a grande maioria dos fertilizantes que utilizamos. O aumento do custo destes fatores de produção vai certamente ter influência no preço dos alimentos que impactam desproporcionalmente as famílias com menos rendimentos. Se a isto somarmos o facto de em janeiro de 2026, ter entrada em vigor o&nbsp;<a href="https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/LSU/?uri=CELEX:32023R0956" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mecanismo de Ajuste de Carbono nas Fronteiras (CBAM)</a>&nbsp;(7) da União Europeia que começou a taxar as emissões de carbono de fertilizantes importados, o custo de produção aumentará certamente.</p>



<p>Voltando a Howard T. Odum e ao seu último grande livro &#8220;A Prosperous Way Down&#8221; (2001), já escrito com a sua esposa, Elisabeth C. Odum e antes de falecer, o investigador insiste que os sistemas alimentares devem ser redesenhados para o cenário de escassez de petróleo, centrando a sua atenção na transição para modelos mais integrados na natureza e menos dependentes do petróleo.</p>



<p>Este aviso foi feito há 25 anos. Será que, entretanto, nos preparámos o suficiente para o que aí vem?</p>



<h2 class="wp-block-heading">Políticas públicas face ao aumento do preço dos alimentos: evidência sobre a sua efetividade </h2>



<p>As medidas destinadas a mitigar o impacto do aumento dos preços dos alimentos podem, de acordo com a&nbsp;<a href="https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/92134cb2-6075-4ce0-a25a-be37ada83504/content" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO)</a> (8), ser organizadas em três grandes grupos. Em primeiro lugar, encontram-se as&nbsp;<strong>políticas orientadas para os consumidores</strong>, que procuram reduzir o impacto do aumento dos preços no consumo alimentar, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis. Estas podem incluir medidas como a redução de impostos sobre alimentos, subsídios aos preços, medidas de controlo de preços, distribuição direta de alimentos ou programas de apoio alimentar. Em segundo lugar, existem as&nbsp;<strong>políticas comerciais e de mercado</strong>, cujo objetivo é reduzir os preços internos e aumentar a oferta de alimentos. Entre estas medidas destacam-se a redução de tarifas de importação, a imposição de limites às exportações, bem como mecanismos de monitorização de preços ou outras formas de intervenção nos mercados. Por fim, encontram-se as&nbsp;<strong>políticas orientadas para os produtores</strong>, que procuram aumentar a produção agrícola e reforçar a oferta alimentar. Neste grupo incluem-se medidas como subsídios a fertilizantes e outros fatores de produção, apoio ao crédito agrícola e mecanismos de apoio aos produtores.</p>



<p>Em Portugal, algumas destas medidas têm sido utilizadas em diferentes contextos de crise económica e social. Durante o período de austeridade, foram criados novos modelos de apoio alimentar, como as&nbsp;<strong>cantinas sociais</strong>. Posteriormente, durante a pandemia de COVID-19, reforçaram-se as respostas de apoio alimentar, nomeadamente através do aumento do número de beneficiários elegíveis para o&nbsp;<strong>Programa Operacional de Apoio às Pessoas Mais Carenciadas (POAPMC)</strong>&nbsp;e da manutenção da alimentação em contexto escolar para crianças de famílias mais vulneráveis, mesmo durante o período de encerramento das escolas. Mais recentemente, no contexto da inflação associada ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia, foram implementadas medidas como a aplicação temporária do&nbsp;<strong>IVA zero a um cabaz de alimentos considerados essenciais e saudáveis</strong>, o alargamento de programas de apoio alimentar em contexto escolar, incluindo a disponibilização de pequeno-almoço para crianças mais carenciadas, bem como a atribuição de apoios extraordinários, em particular às famílias mais carenciadas, para compensar o aumento do custo de vida. Paralelamente, foram também adotadas medidas de apoio ao setor agrícola destinadas a mitigar o aumento dos custos de produção.&nbsp;Ainda neste período foi também criado o&nbsp;<strong><a href="https://observatorioagroalimentar.gov.pt" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Observatório de Preços Agroalimentar</a></strong>&nbsp;<strong>&nbsp;</strong>(9), promovido pelo Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), com o objetivo de reforçar a monitorização da evolução dos preços.</p>



<p>Perante a diversidade de instrumentos disponíveis, é fundamental que as medidas adotadas sejam cuidadosamente planeadas e baseadas na evidência existente, de forma a garantir a sua efetividade. Num contexto económico complexo, como aquele que vivemos atualmente, torna-se particularmente importante assegurar que os recursos públicos são aplicados em intervenções que produzam ganhos efetivos para a população. Caso contrário, corre-se o risco de implementar medidas com uma relação custo-benefício desfavorável, que implicam aumentos significativos da despesa pública ou reduções substanciais da receita fiscal e que, por essa razão, podem comprometer o financiamento de outras políticas públicas, sem gerar efeitos proporcionais na redução dos preços ou na melhoria do acesso aos alimentos.&nbsp;Acresce que políticas mal desenhadas podem gerar efeitos contraproducentes e, em alguns casos, contribuir para agravar os problemas que procuram resolver.&nbsp;</p>



<p>Por esta razão, torna-se essencial recolher e analisar evidência sobre a efetividade e os custos das diferentes políticas utilizadas para mitigar o aumento dos preços dos alimentos.</p>



<p>Os dados mais recentes disponíveis reportam sobretudo à crise alimentar global de 2008, que mostrou que, mesmo com políticas de intervenção, os preços dos alimentos continuaram a subir em muitos países, evidenciando a dificuldade em implementar medidas verdadeiramente eficazes nestes contextos. Ainda assim, a análise das respostas políticas adotadas a nível internacional indica que algumas medidas apresentam maior potencial de eficácia.</p>



<p>Entre estas destacam-se a&nbsp;<strong>redução ou eliminação de tarifas de importação de alimentos</strong>, que contribui para aumentar a oferta no mercado interno e aliviar a pressão sobre os preços, bem como a&nbsp;<strong>utilização de reservas públicas de alimentos&nbsp;</strong>para estabilizar os mercados. Os <strong>programas de proteção social direcionados às populações mais vulneráveis</strong>, como transferências monetárias ou distribuição de alimentos, também demonstraram ser importantes para mitigar os efeitos do aumento dos preços entre os grupos de menor rendimento. Paralelamente, algumas políticas de apoio à produção agrícola, como subsídios a fatores de produção ou apoio ao crédito agrícola, podem contribuir para aumentar a produção e reforçar a segurança alimentar no médio prazo.</p>



<p>Por outro lado, certas medidas revelam limitações importantes. Em particular, os&nbsp;<strong>subsídios generalizados aos alimentos&nbsp;</strong>e as&nbsp;<strong>reduções generalizadas de impostos</strong>&nbsp;podem ser muito onerosos para o orçamento público e tendem a beneficiar também os grupos com rendimentos mais elevados, não sendo suficientemente direcionados para os segmentos mais vulneráveis da população. Além disso, medidas de controlo administrativo de preços podem gerar distorções de mercado e problemas de abastecimento.</p>



<p>Outro aspeto que também importa refletir prende-se com o recurso a&nbsp;<strong>medidas de protecionismo nacional ou de proteção do mercado interno</strong>, como restrições às exportações, controlo de importações ou outras intervenções destinadas a preservar a oferta interna. Embora estas medidas possam, à primeira vista, parecer eficazes para proteger os consumidores nacionais, a evidência sugere que os seus efeitos podem ser contrários aos resultados pretendidos, especialmente num contexto de mercados alimentares fortemente interligados a nível global. Em economias abertas, políticas que restringem o comércio podem reduzir a eficiência dos mercados, gerar distorções nos preços e limitar o acesso a produtos mais competitivos provenientes do exterior. Além disso, quando vários países adotam simultaneamente medidas de protecionismo, estas podem amplificar a volatilidade dos preços internacionais e contribuir para uma escalada global dos preços dos alimentos. Durante a crise alimentar de 2007–2008, por exemplo, várias restrições às exportações adotadas por países produtores reduziram a oferta disponível nos mercados internacionais e contribuíram para agravar o aumento dos preços&nbsp;globais (10-12).</p>



<p>Já existe também evidência sobre o contexto português. Um&nbsp;<a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0313592624000869" target="_blank" rel="noreferrer noopener">estudo&nbsp;</a>recente analisou os impactos dos choques internacionais nos preços da energia e dos alimentos na economia portuguesa e avaliou diferentes respostas de políticas públicas destinadas a mitigar os seus efeitos. O estudo analisou quatro medidas implementadas em Portugal durante o período de 2022 e 2023: aumento dos salários, transferências monetárias para as famílias, redução de impostos sobre o consumo e redução de impostos sobre a produção. Os resultados indicam que estas medidas têm efeitos distintos. O aumento dos salários pode melhorar o rendimento das famílias, mas tende a aumentar os custos de produção e a agravar as pressões inflacionistas. As transferências monetárias e a redução de impostos sobre o consumo (ex: redução do IVA dos alimentos) podem ajudar a sustentar o consumo das famílias, mas apresentam custos elevados para as finanças públicas e não reduzem diretamente as pressões sobre os preços. Por sua vez, a&nbsp;<strong>redução de impostos sobre a produção</strong>&nbsp;surge como a política mais eficaz entre as alternativas analisadas. Ao reduzir os custos de produção das empresas, esta medida melhora a competitividade dos setores económicos, estimula a produção e o emprego e contribui para mitigar os efeitos negativos do choque de preços na economia, apresentando simultaneamente um impacto relativamente menor sobre as finanças públicas (13).</p>



<p>Assim, este&nbsp;<a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0313592624000869" target="_blank" rel="noreferrer noopener">estudo</a> apresenta resultados pouco favoráveis à redução do IVA sobre os alimentos, em parte porque se trata de uma medida com um custo de implementação relativamente elevado face aos&nbsp;benefícios que permite alcançar.&nbsp;Ainda assim, é uma medida que merece ser analisada com maior detalhe, uma vez que continua a ser uma das propostas frequentemente apresentadas para responder aos sucessivos períodos de inflação que Portugal tem enfrentado. Os resultados menos positivos identificados neste estudo, podem estar relacionados com o facto de o impacto da redução de impostos sobre os alimentos depender do nível de tributação já existente. Ou seja, quando os impostos já são relativamente baixos, a sua redução tende a ter efeitos limitados nos preços finais pagos pelos consumidores. Este é precisamente o caso de Portugal, onde a aplicação de uma taxa de IVA zero a alimentos considerados essenciais ou saudáveis corresponde a apenas uma redução da taxa de 6% para 0%.</p>



<p>Aliás,&nbsp;a medida de aplicação de&nbsp;<strong>IVA zero a um cabaz de alimentos essenciais</strong>, implementada em Portugal em 2023, <a href="https://expresso.pt/financas-publicas/2023-04-20-IVA-zero-tem-um-custo-elevado-pode-nao-ser-sentido-e-nao-e-focado-nos-mais-vulneraveis-diz-Centeno-que-acha-melhor-ficar-por-aqui-2e11b53a" target="_blank" rel="noreferrer noopener">foi recebida com alguma cautela por parte do&nbsp;Banco de Portugal</a>, que&nbsp;manifestou reservas quanto à eficácia estrutural deste tipo de política, sublinhando que a redução de impostos indiretos nem sempre se traduz integralmente em preços mais baixos para os consumidores, que são medidas que não são dirigidas para as causas estruturas da inflação e que por isso tendem a ter efeitos temporários e incertos sobre o poder de compra das famílias.</p>



<p>Relativamente à implementação da medida transitória do IVA zero implementada em Portugal em 2023, também já existem trabalhos que procuraram avaliar a sua efetiva implementação, já que estudos anteriores (14-17) relativos à experiência de outros países mostravam que a redução de impostos nem sempre se traduziam totalmente para os preços finais ao consumidor. Um&nbsp;<a href="https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0047272725001148" target="_blank" rel="noreferrer noopener">estudo de Bernardino et al. (2025)</a>&nbsp;(18) analisa o impacto da redução temporária do IVA para 0% aplicada a um conjunto de 46 produtos alimentares essenciais em Portugal entre abril de 2023 e janeiro de 2024. Utilizando dados relativos aos preços dos alimentos nos supermercados recolhidos pelo Banco de Portugal, os autores concluem que a redução do imposto foi&nbsp;integralmente transmitida aos preços pagos pelos consumidores, resultando numa diminuição imediata dos preços de cerca de 5,66%, equivalente à redução da taxa de IVA. O estudo mostra ainda que este efeito se manteve ao longo de todo o período de vigência da medida e que, após o fim da política, os preços voltaram a aumentar de forma simétrica quando o IVA regressou ao nível anterior. Estes resultados sugerem que, em determinados contextos, as reduções de impostos podem ser efetivamente refletidas nos preços finais. Estes resultados contrastam com muitos estudos anteriores (14-17), que frequentemente encontram transmissão parcial das reduções de impostos para os preços. Contudo, os autores salientam que o sucesso desta medida poderá ter sido facilitado por fatores específicos, como a elevada visibilidade pública da política, a monitorização mediática dos preços e da criação do observatório do preço dos alimentos e a existência de uma tendência de queda dos preços ao produtor no momento da sua implementação.</p>



<p>Em linha com os resultados deste estudo e, apesar dessas reservas, o Banco de Portugal reconheceu que a medida teve algum impacto no curto prazo. O&nbsp;<a href="https://www.bportugal.pt/sites/default/files/anexos/pdf-boletim/be_jun2023_p.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Boletim Económico de junho de 2023</a>&nbsp;<strong>&nbsp;</strong>(19-20), indicou que a introdução do IVA zero para determinados alimentos contribuiu para moderar temporariamente a inflação alimentar, ajudando a explicar parte da revisão em baixa das previsões de inflação para esse ano. Em todo o caso, o&nbsp;<a href="https://www.gpeari.gov.pt/documents/35086/381108/2-Apresentacao_20231122_IVAzero.pdf/d9d0af4f-936f-faee-deb5-f611137a20e3?t=1700744704010&amp;utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Banco de Portugal</a> (21)<a>&nbsp;</a>também alerta que estes efeitos devem ser cautelosamente interpretados, uma vez que as pressões inflacionistas já sem encontravam em diminuição no período em análise, reforçando que a evolução dos preços depende mais fortemente de fatores externos e estruturais, como os preços das matérias-primas energéticas, das matérias-primas alimentares e condições nas cadeiras de abastecimento.</p>



<p>Assim, os dados que dispomos não são conclusivos quanto ao potencial impacto da redução do IVA dos alimentos e nenhum estudo avaliou o seu real impacto no poder de compra das famílias e na melhoria das condições de acesso aos alimentos.</p>



<p>No que diz respeito à evidência existente sobre a efetividade destas medidas, importa referir que a maioria dos estudos se centra sobretudo em indicadores económicos, como a inflação, a competitividade, o emprego ou o consumo. Consequentemente, a avaliação da sua eficácia tem sido realizada principalmente à luz destes indicadores. Por outro lado, são ainda limitados os estudos que analisam o impacto destas medidas em dimensões mais diretamente relacionadas com o acesso aos alimentos e com a qualidade da alimentação.</p>



<p>De forma geral, a evidência sugere que as políticas mais eficazes são aquelas que&nbsp;aumentam a oferta de alimentos ou apoiam diretamente os grupos mais vulneráveis, em vez de intervenções generalizadas no mercado. Assim, a conceção de políticas públicas nesta área deve privilegiar medidas bem direcionadas e sustentáveis do ponto de vista fiscal, baseadas em evidência sobre os seus efeitos reais.&nbsp;A tomada de decisão política implica escolher a melhor opção entre as várias alternativas disponíveis, um processo que é simultaneamente necessário e difícil. Trata-se de uma tarefa particularmente exigente em contextos de elevada incerteza, como aquele que vivemos atualmente, e em situações em que é necessário tomar decisões num curto espaço de tempo. Este exercício implica também procurar compatibilizar diferentes objetivos das medidas em análise, nomeadamente o controlo das pressões inflacionistas, a melhoria do poder de compra das famílias e a garantia da sua eficiência económica. Ao mesmo tempo, importa minimizar os seus impactos económicos e orçamentais, tendo em conta que estas medidas podem afetar a despesa pública ou a receita fiscal e, consequentemente, o financiamento disponível para outras políticas públicas, que já é limitado. Neste sentido, este texto pretende constituir um contributo para a discussão e para o processo de decisão política que terá lugar nos próximos dias.</p>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<h3 class="wp-block-heading">Referências bibliográficas</h3>



<p class="has-small-font-size" style="padding-top:0px;padding-bottom:0px">1. Erisman, J. W., Sutton, M. A., Galloway, J., Klimont, Z., &amp; Winiwarter, W. How a century of ammonia synthesis changed the world. Nature Geoscience, 1(10), 636-639. 2008. Disponível em: https://www.nature.com/articles/ngeo325<br>2. Global Alliance for the Future of Food. Power Shi: Why We Need to Wean Industrial Food Systems O Fossil Fuels. n.p.: Global Alliance for the Future of Food. Disponível em: https://futureoffood.org/wp-content/uploads/2023/11/ga_food-energy-nexus_report.pdf<br>3. Odum, H. T. Energy, ecology, and economics. Ambio, 2(6), 220–227. 1973.<br>4. Mohr, H. Environment, Power, and Society. 1974. Odum, H. T. Wiley-Interscience, New York 1971. Biologie in unserer Zeit, 4: 94-95. <a href="https://doi.org/10.1002/biuz.19740040308" target="_blank" rel="noopener">https://doi.org/10.1002/biuz.19740040308</a><br>5. United Nations. Annex A to E/C.18/2024/CRP.1: Agricultural Products. United Nations Committee of Experts on International Cooperation in Tax Matters. 2024. Disponível em: https://docs.un.org/en/e/2024/45/Add.1<br>6. Food and Agriculture Organization of the United Nations. FAO Food Price Index. Disponível em: <a href="https://www.fao.org/worldfoodsituation/foodpricesindex/en/" target="_blank" rel="noopener">https://www.fao.org/worldfoodsituation/foodpricesindex/en/</a><br>7. Regulamento (UE) 2023/956 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 10 de maio de 2023, que estabelece um Mecanismo de ajustamento carbónico fronteiriço. Disponível em: <a href="https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/LSU/?uri=CELEX:32023R0956" target="_blank" rel="noopener">https://eur-lex.europa.eu/legal-content/PT/LSU/?uri=CELEX:32023R0956</a><br>8. Food and Agriculture Organization of the United Nations. Committee on Commodity Problems. Sixty-seventh Session. Policy Responses to Higher Food Prices. Rome, 20-22 April 2009. Disponível em: https://openknowledge.fao.org/server/api/core/bitstreams/92134cb2-6075-4ce0-a25a-be37ada83504/content<br>9. Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral. Observatório de Preços Agroalimentar. Disponível em: <a href="https://observatorioagroalimentar.gov.pt/" target="_blank" rel="noopener">https://observatorioagroalimentar.gov.pt</a><br>10. FAO. The State of Food Insecurity in the World 2011: How does international price volatility affect domestic economies and food security? Rome: Food and Agriculture Organization of the United Nations. 2011.<br>11. World Bank. Rising Food Prices: Policy Options and World Bank Response. Washington, DC: World Bank. 2008.<br>12. von Braun, J. Food Price Crisis of 2007–08: Lessons for Policy. Washington, DC: International Food Policy Research Institute (IFPRI). 2009.<br>13. Escalante L, Mamboundou P. Adapting fiscal strategies to energy and food price shocks in Portugal. Economic Analysis and Policy. 82: 651-665. 2024. <a href="https://doi.org/10.1016/j.eap.2024.04.005" target="_blank" rel="noopener">https://doi.org/10.1016/j.eap.2024.04.005</a>.<br>14. Fuest C, Neumeier F, Stöhlker D. The pass-through of temporary VAT rate cuts: evidence from German supermarket retail. Int Tax Public Finance 32, 51–97. 2025. <a href="https://doi.org/10.1007/s10797-023-09824-7" target="_blank" rel="noopener">https://doi.org/10.1007/s10797-023-09824-7</a><br>15. Kosonen T. More and cheaper haircuts after VAT cut? On the efficiency and incidence of service sector consumption taxes. Journal of Public Economics,131, 87-100. 2015.<br>16. Benzarti Y, Carloni D. Who Really Benefits from Consumption Tax Cuts? Evidence from a Large VAT Reform in France. American Economic Journal: Economic Policy. 11:1, 38-63. 2019.<br>17. Fortaleza N, Prades E, Roca M. Analysing the VAT Cut Pass-Through in Spain using Web-Scraped Supermarket Data and Machine Learning. Banco de España. WP 17. 2024. Disponível em: <a href="https://www.bde.es/f/webbe/SES/Secciones/Publicaciones/PublicacionesSeriadas/DocumentosTrabajo/24/Files/dt2417e.pdf" target="_blank" rel="noopener">https://www.bde.es/f/webbe/SES/Secciones/Publicaciones/PublicacionesSeriadas/DocumentosTrabajo/24/Files/dt2417e.pdf</a><br>18. Bernardino T, Gabriel RD, Quelhas J, Silva-Pereira M.The full, persistent, and symmetric pass-through of a temporary VAT cut. Journal of Public Economics. 248: 105416. 2025. <a href="https://doi.org/10.1016/j.jpubeco.2025.105416" target="_blank" rel="noopener">https://doi.org/10.1016/j.jpubeco.2025.105416</a>.<br>19. Banco de Portugal. Boletim Económico Junho 2023. ISSN: 2182-0368. 2023. Disponível em: <a href="https://www.bportugal.pt/sites/default/files/anexos/pdf-boletim/be_jun2023_p.pdf" target="_blank" rel="noopener">https://www.bportugal.pt/sites/default/files/anexos/pdf-boletim/be_jun2023_p.pdf</a><br>20. Banco de Portugal. Boletim Económico Outubro 2023. ISSN: 2182-0368. 2023. Disponível em: <a href="https://www.bportugal.pt/sites/default/files/anexos/pdf-boletim/be_out2023_p.pdf?utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="noopener">https://www.bportugal.pt/sites/default/files/anexos/pdf-boletim/be_out2023_p.pdf?utm_source=chatgpt.com</a><br>21. Banco de Portugal (Gouveia C, Manteu C, Serra S, Cabral S). Impacto do IVA Zero sobre os preços. Novembro 2023. Disponível em: <a href="https://www.gpeari.gov.pt/documents/35086/381108/2-Apresentacao_20231122_IVAzero.pdf/d9d0af4f-936f-faee-deb5-f611137a20e3?t=1700744704010&amp;utm_source=chatgpt.com" target="_blank" rel="noopener">https://www.gpeari.gov.pt/documents/35086/381108/2-Apresentacao_20231122_IVAzero.pdf/d9d0af4f-936f-faee-deb5-f611137a20e3?t=1700744704010&amp;utm_source=chatgpt.com</a></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Vamos falar sobre a nova pirâmide alimentar norte-americana</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/sobre-nova-piramide-alimentar-norte-americana/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pensar Nutrição]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 25 Feb 2026 09:41:08 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaio]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://pensarnutricao.pt/?p=2532</guid>

					<description><![CDATA[O Guia Alimentar Norte-Americano, lan&#231;ado no in&#237;cio de 2026, &#233; um conjunto de recomenda&#231;&#245;es oficiais criado pelo governo dos EUA e atualizado a cada cinco anos. Tem impacto direto na defini&#231;&#227;o de pol&#237;ticas p&#250;blicas de alimenta&#231;&#227;o, especialmente nas refei&#231;&#245;es escolares... <div class="read-more-wrapper"><a class="button button-primary" href="https://pensarnutricao.pt/sobre-nova-piramide-alimentar-norte-americana/">Ler mais</a></div>]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O <a href="https://www.dietaryguidelines.gov/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Guia Alimentar Norte-Americano</a>, lançado no início de 2026, é um conjunto de recomendações oficiais criado pelo governo dos EUA e atualizado a cada cinco anos.</p>



<p>Tem impacto direto na definição de políticas públicas de alimentação, especialmente nas refeições escolares e no apoio a populações em situação de insegurança alimentar.</p>



<p>Pela sua relevância científica, pelo seu impacto global e pelo facto de este novo guia apresentar algumas contradições científicas e uma representação gráfica pouco convencional — uma pirâmide invertida —, decidimos solicitar a três professores da FCNAUP, de áreas distintas, um comentário pessoal sobre esta ferramenta recém-lançada. </p>



<p>Cada um com o seu estilo e sem limites.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Um contributo da Casa da Nutrição para esta necessária discussão.</h2>



<p><a href="https://sigarra.up.pt/fcnaup/pt/func_geral.formview?p_codigo=240426" target="_blank" rel="noopener">Ada Rocha, Professora Catedrática da FCNAUP</a></p>



<pre class="wp-block-verse has-custom-2-background-color has-background">“No contexto português, este guia não parece acrescentar valor face à Roda dos Alimentos, amplamente validada e culturalmente adequada.”</pre>



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</div>



<p><a href="https://sigarra.up.pt/fcnaup/pt/func_geral.formview?p_codigo=236022" target="_blank" rel="noopener">Alejandro Santos, Professor Associado com Agregação da FCNAUP</a></p>



<pre class="wp-block-verse has-custom-2-background-color has-background">“Do que se pode ler no documento, e nos múltiplos comentários que o mesmo suscitou, creio ser possível concluir que este tem aspetos positivos, negativos e alguns mesmo incompreensíveis.”</pre>



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</div>



<p><a href="https://sigarra.up.pt/fcnaup/pt/func_geral.formview?p_codigo=223087" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pedro Moreira, Professor Catedrático da FCNAUP</a></p>



<pre class="wp-block-verse has-custom-2-background-color has-background">“Neste conjunto, e na perspetiva da prevenção cardiovascular, estas diretrizes são acusadas de, nalguns pontos, fazerem o oposto daquilo que tradicionalmente se recomendava.”</pre>



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		<title>Portugal &#8211; tradição alimentar num mundo em mudança – entre o ficar e o inovar</title>
		<link>https://pensarnutricao.pt/tradicao-alimentar-mundo-em-mudanca-ficar-inovar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pedro Graça]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Jan 2026 11:37:28 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ensaio]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://pensarnutricao.pt/?p=2513</guid>

					<description><![CDATA[A cultura alimentar nasce da rela&#231;&#227;o entre comunidades e territ&#243;rio, gerando tradi&#231;&#245;es vivas que expressam identidade, mem&#243;ria e criatividade face &#224; escassez.]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A cultura alimentar e a gastronomia nascem da relação entre comunidades e território, gerando tradições vivas que expressam identidade, memória e criatividade face à escassez.</p>



<p>Hoje, a maior longevidade, as mudanças sociais, demográficas e climáticas e ainda e o novo conhecimento sobre a relação entre a saúde e alimentação exigem que a tradição dialogue criticamente sobre estas mudanças para não perder o seu espaço na nossa mesa. </p>



<p>Preservar a tradição implica conhecê-la, envolvê-la nas comunidades, adaptá-la com responsabilidade e mantê-la acessível como património coletivo e em evolução. </p>



<p>Este diálogo sobre a construção de soluções de futuro para as tradições alimentares que nos protegem, em colaboração com os profissionais da nutrição, parece-nos fundamental e não pode esperar.</p>



<p>Ao longo deste curto ensaio fazemos várias propostas de intervenção neste sentido.</p>



<h2 class="wp-block-heading">O que nos caracteriza e distingue</h2>



<p>A cultura alimentar nasce da relação profunda entre os seres humanos e o território que habitam. É o resultado da forma como cada comunidade observou, compreendeu e transformou os recursos disponíveis em alimento, procurando não apenas sobreviver, de início, mas também encontrar prazer, identidade e bem-estar à mesa. Mesmo num mundo em permanente mudança, a comida continua a ser um lugar de memória, pertença e significado (1)</p>



<p>A gastronomia é uma expressão cultural dessa relação. Cada receita conta uma história: do lugar de onde vem, das pessoas que a criaram, das circunstâncias que a moldaram. A repetição desses gestos e sabores ao longo do tempo dá origem à tradição — não como algo imutável, mas como um património vivo, em constante transformação, acompanhando a evolução das sociedades que espelha os valores, as crenças e a forma de estar das comunidades num determinado território (2,3).</p>



<p>No espaço mediterrânico, e de forma muito particular em Portugal, a resposta cultural à escassez foi a criatividade. Dela nasceu um modelo alimentar diverso, sazonal e profundamente ligado ao mundo vegetal, onde os ingredientes ganham expressão através do saber-fazer. Essa é a base da nossa dieta mediterrânica que é património imaterial da humanidade (4, 5).</p>



<p>A tradição gastronómica portuguesa revela também uma ética de cuidado e de partilha. O aproveitamento integral dos alimentos, a valorização do que é local e disponível e a recusa do desperdício refletem formas de organização social assentes na proximidade, na solidariedade e na economia do quotidiano. Existe aqui uma ética ambiental, construída a partir dos conhecimentos de cada geração (6,7).</p>



<p>Muito daquilo que hoje reconhecemos como tradição nasceu da necessidade, da escassez, da adaptação e da criatividade face à pobreza. Essa criatividade caracteriza-nos e engrandece-nos. Não nos deve envergonhar.</p>



<p>O contexto atual coloca novos desafios. As transformações ambientais, tecnológicas e sociais e até geopolíticas exigem que a tradição não seja apenas preservada, mas também pensada criticamente. O futuro da cultura alimentar reside na capacidade de dialogar com o passado, reinventando-o com consciência, criatividade e responsabilidade, para que continue a fazer sentido no presente e no futuro.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A tradição como evolução e a coexistência com o conhecimento novo em nutrição</h2>



<p>Enquanto prática profundamente ligada às necessidades biológicas e culturais dos grupos humanos, a tradição alimentar pode — e muitas vezes deve — ser reinterpretada à luz dos objetivos contemporâneos de saúde e bem-estar. Adaptar não significa perder identidade, mas garantir que essa herança continua a cumprir a sua função de forma sustentável e significativa.</p>



<p>A procura da longevidade e de mais anos de vida sem doença tornou incontornável a alimentação como determinante da saúde, em particular quando a esperança média de vida humana passou dos 50 para os 85 anos em poucas décadas. Hoje, sabemos que muitas das doenças mais comuns nestes últimos anos de vida são modeladas pelo que comemos. Isto significa que doenças de que quase não se ouvia falar no início do século XX — porque não vivíamos até tão tarde —, como a diabetes, as doenças cardiovasculares ou o cancro, todas com forte influência alimentar, são hoje as principais causas de morte numa sociedade mais envelhecida. É algo que não podemos negar (8, 9).</p>



<p>A alimentação inadequada — e quando digo inadequada refiro-me a uma alimentação hipercalórica, promotora de excesso de peso, obesidade e doenças associadas — resulta também de mudanças que ocorreram nas nossas sociedades muito recentemente.<br>No início do século XX, as pessoas gastavam mais energia porque a vida de trabalho, essencialmente braçal, assim o exigia. Hoje, por um lado e felizmente, gastamos menos energia diariamente, porque o conforto e a tecnologia reduziram essa exigência.</p>



<p>O corpo humano permanece o mesmo, mas o contexto à nossa volta mudou profundamente — e é esse desfasamento que está na origem de muitos dos desafios atuais da saúde. No início dos anos 60, a agricultura empregava uma grande parte da população ativa em Portugal: cerca de 42% do total do emprego era agrícola. Atualmente, essa proporção é muito menor, com apenas cerca de 3% da população ativa a trabalhar no setor. É apenas um exemplo (10, 11).</p>



<p>O problema é que o corpo necessita biologicamente de menos energia, mas o nosso cérebro e as células dos nossos organismos continuam essencialmente os mesmos de há milhares de anos. Hoje precisamos de muito menos energia diariamente, mas continuamos a consumir alimentos que foram afinados durante séculos para vidas fisicamente exigentes. O cérebro profundo e o corpo continuam a preferir alimentos que nós, nutricionistas, classificamos como muito densos em energia, sobretudo quando desligamos o botão da racionalidade.</p>



<p>E seres irracionais e emocionalmente frágeis somos todos nós, várias vezes ao dia: quando compramos por impulso no supermercado, quando comemos em frente à televisão, quando nos zangamos, quando procuramos comida de conforto. Nesses momentos, o cérebro menos capaz de reagir à perturbação emocional desliga o botão do controlo alimentar do séc. XXI e entra em modo primitivo — um modo quase “Neanderthal”, programado há milhares de anos — escolhendo quase sempre o prazer imediato do açúcar, da gordura e das calorias, que ativam rapidamente os centros do prazer no cérebro (12, 13, 14).</p>



<p>Este desfasamento está na base das doenças do excesso na atualidade: obesidade, doenças metabólicas e um envelhecimento menos funcional.</p>



<p>Consumir muitos nutrientes, muitas vitaminas ou minerais, e, ao mesmo tempo, menos energia — ou reduzir drasticamente o consumo energético — é uma proposta contra a natureza biológica. É uma aposta radical de mudança. O ser humano sempre viveu em ambiente de escassez e sempre acumulou. Quem acumulou e engordou sobreviveu durante milhares de anos, adaptando o corpo a essa biologia.</p>



<p>Ora, o que nos estão a pedir neste mundo tecnológico, de pouco esforço físico e baixo gasto energético, é que evitemos precisamente a energia e a gordura que sempre procurámos instintivamente e para as quais estamos biologicamente preparados para acumular. É como pedir a um leão, ou a outro carnívoro, que passe a comer alface.</p>



<h2 class="wp-block-heading">E o que é que tudo isto tem a ver com a tradição alimentar ou gastronómica?</h2>



<p>A preservação da tradição gastronómica tem, por si só, um inegável valor patrimonial e histórico. No entanto, esse valor simbólico não garante automaticamente a sua sobrevivência — tal como o modelo alimentar tradicional do passado não garante, por si, a nossa saúde ao longo de uma vida mais longa. Até porque viver mais deve significar viver a maior parte desses anos sem doença e com qualidade. É isso que nos deve interessar.</p>



<p>Existe tradição alimentar que protege a nossa saúde. Existe outra — ou outras — que nos matam precocemente. Nem toda a tradição é boa, nem toda a tradição é má. Manter a tradição apenas porque “sempre foi assim”, de forma acrítica, é que é (a meu ver) problemático.</p>



<p>A evidência científica acumulada nos últimos anos demonstra que o consumo de carne processada e de álcool está associado a um aumento significativo do risco de cancro, através de mecanismos como a inflamação crónica, o stress oxidativo, a formação de compostos carcinogénicos e os danos diretos no DNA. Em contraste, padrões alimentares ricos em hortícolas, leguminosas (fava, ervilha, feijão, tremoço, grão e lentilha), frutos gordos (amêndoa, avelã, noz…), cereais integrais e fruta estão associados à redução da mortalidade e do risco de doença. Neste enquadramento integram-se grande parte das nossas sopas tradicionais e pratos de panela (jardineiras, caldeiradas, cataplanas), preparados com amêndoas e nozes, o azeite, os acompanhamentos à base de vegetais — como os arrozes malandros — e, ainda, a vasta diversidade de fruta produzida em Portugal (15, 16, 17).</p>



<p>Em determinadas circunstâncias, pode ser essencial permitir que tradição e inovação coexistam. Manter práticas tradicionais em diálogo com novos produtos, técnicas e abordagens é uma forma de fortalecer a nossa cultura alimentar.<br>Inovar é, muitas vezes, adaptar aquilo que reconhecemos como próximo das comunidades, atualizando e legitimando a sua função alimentar e gastronómica. Uma cozedura de hortícolas que se renova com a adição de novos vegetais entretanto cultivados é uma sopa renovada. Um pão feito com água, menos sal, farinhas e fermentos com tempos diferentes, mas no mesmo forno, é um pão que se reinventa. Um cozido com menos fumados e mais hortícolas, preservando a cozedura tradicional, deixa de ser um cozido? Não creio. Um cozido acompanhado de arroz basmati com caril em vez de arroz carolino deixa de ser um cozido? Talvez sim.</p>



<h2 class="wp-block-heading">A aceleração do tempo e a tradição alimentar</h2>



<p>Um exemplo da necessidade de inovar resulta também do facto de o planeta estar a mudar mais rapidamente do que no passado. O que caracteriza o momento atual não é a mudança em si — essa sempre existiu —, mas a velocidade da mudança. No mundo mediterrânico, ao longo dos últimos oito mil anos, sempre houve adaptação alimentar. Nos últimos quinhentos anos, foram sendo introduzidos, de forma lenta e progressiva, alimentos hoje considerados tradicionais, como o tomate, o pimento, a malagueta, a batata, os feijões comuns, a abóbora e a curgete, o milho, o cacau, o chocolate, a baunilha, o amendoim, o girassol e o seu óleo, o ananás, o kiwi ou o abacate.</p>



<p>Tratou-se de um processo de evolução e adaptação alimentar e gastronómica que sempre existiu, mas que hoje ocorre com pressupostos diferentes e, sobretudo, a uma velocidade muito superior. A evolução lenta que caracterizou o período até meados do século XX foi substituída, no século XXI, por uma evolução cada vez mais acelerada.</p>



<p>Essa evolução lenta era operada, maioritariamente, pelos detentores do conhecimento local — em muitos casos, os próprios habitantes dos territórios onde os alimentos eram produzidos e transformados. Já a evolução rápida que hoje observamos poderá, muito provavelmente, deixar de ser conduzida por quem detém esse conhecimento gastronómico popular, de proximidade geográfica e cultural com a produção. Com isso, corre-se o risco de perder muito desse valor, por falta de atenção aos processos. Por falta de pessoas que residem nestes territórios. Por falta de massa crítica local para conduzir estes processos no nosso território onde os alimentos são produzidos.</p>



<p>Os franchisings de novos modos de comer — da fast food às padarias — trazem consigo o know-how de produzir sabor intenso e fácil a baixo custo e uma forma mecânica e estudada de implementar e fazer dinheiro. Nestes modelos, os territórios fornecem apenas os espaços físicos, as lojas e as pessoas, mas perde-se o saber fazer. Algo semelhante acontece também com os modelos franchisados da nova agricultura (18).</p>



<p>Estas mudanças rápidas tenderão a tornar-se ainda mais frequentes nos nossos territórios, sobretudo se os processos e produtos alimentares resultantes de uma longa tradição forem colocados numa redoma de proteção, sem possibilidade de adaptação. Se não forem incentivados a evoluir de forma pensada, em diálogo com novos modelos de consumo, de relação com a sociedade e com os novos formatos de comunicação e divulgação, perderão relevância.</p>



<p>Ao contrário do que muitas vezes se pensa, a tradição perde-se muito mais rapidamente do que o tempo que se levou a construi-la. A tradição alimentar e gastronómica de base familiar está hoje, em grande parte, nas mãos de empresas muito pequenas e de famílias envelhecidas, com um conhecimento assente sobretudo na oralidade. A cada minuto, esse conhecimento está a desaparecer dos territórios à medida que o tempo avança.</p>



<h2 class="wp-block-heading">As alterações climáticas e a tradição alimentar</h2>



<p>A esta mudança associada ao aumento da longevidade e à aceleração das transformações sociais resultantes do encurtamento do tempo, das distâncias e das famílias, somam-se ainda as alterações climáticas. Em Portugal, e em particular no sul da Europa, as mudanças climáticas chegaram e trazem fortes impactos (19).</p>



<p>No sistema alimentar, estes impactos traduzem-se numa redução da produtividade agrícola, no aumento de pragas e doenças e num acréscimo dos custos de produção, bem como da sua imprevisibilidade. Tudo isto afeta a qualidade e a disponibilidade dos alimentos tradicionais, podendo levar ao aumento dos preços e a uma maior dependência de importações (20, 21).</p>



<p>Perante este cenário, Portugal terá de apostar em estratégias de adaptação, como o uso eficiente da água, a diversificação de culturas, a seleção de variedades mais resistentes à seca e a adoção de práticas agrícolas sustentáveis, para garantir a segurança alimentar no futuro. Isto significa que alguns alimentos ou ingredientes da nossa tradição poderão, em breve, ver alterada a sua acessibilidade, obrigando a modelos diferentes de consumo alimentar.</p>



<p>Esta mudança será rápida nos próximos dez anos. Quem se preocupa com a preservação da tradição e como terá de antecipar a alteração na disponibilidade dos ingredientes e a acessibilidade, pois os preços de alguns ingredientes poderão alterar-se de forma importante. Quem não estiver preparado será o primeiro a deixar de ter condições para manter um negócio sustentável.</p>



<h2 class="wp-block-heading">As alterações demográficas e a tradição alimentar</h2>



<p>Portugal vive atualmente um “inverno demográfico” com uma situação de baixa natalidade persistente, envelhecimento acelerado da população e insuficiente renovação geracional. Em 2023, a fertilidade total era cerca de 1,44 filhos por mulher, claramente abaixo do nível de substituição geracional (2,1) e um dos mais baixos da Europa.</p>



<p>Os territórios do interior onde a mão de obra para o trabalho agrícola escasseia e no litoral onde escasseiam também trabalhadores para áreas sensíveis como a gastronomia ou turismo levou à necessidade de o país crescer demograficamente com novos trabalhadores provenientes de outras culturas alimentares. Em 2017, a população estrangeira legal em Portugal era relativamente baixa (cerca de 4 % da população total); em 2024 essa proporção subiu para cerca de 14 %–15 % da população residente, com mais de 1,5 milhões de estrangeiros no país — quase um quádruplo em relação há cerca de 7–8 anos atrás (22, 23).</p>



<p>O envolvimento no setor da restauração e serviços, para além da agricultura, obrigarão a um novo repensar das culturas alimentares e do ensino da alimentação, porque os pais destes novos portugueses, que serão uma percentagem significativa das crianças inscritas no nosso sistema escolar, não serão conhecedores da dieta mediterrânica nem de outros conhecimentos da nossa cultura alimentar, que tradicionalmente passa de pais para filhos. Em 2024, aproximadamente 33% (um terço) dos bebés nascidos em Portugal eram filhos de mães nascidas no estrangeiro.</p>



<p>Como poderá a escola e a comunidade ultrapassar este dilema nos nossos modelos de ensino e construção do paladar?</p>



<h2 class="wp-block-heading">As alterações geopolíticas e a tradição alimentar</h2>



<p>Para o fim, fica a mudança menos esperada. A mudança do sentimento de segurança, física e alimentar, que existia na Europa desde os anos 50 do seculo passado. Atualmente enfrentamos novos desafios políticos e militares e a necessidade de preparação para eventos extremos como os decorrentes da interrupção no abastecimento elétrico, como aconteceu recentemente, de situações de alterações no normal funcionamento de sistemas informáticos no transporte, na interrupção do abastecimento de alimentos, água ou até na disrupção do sistema alimentar potenciado por uma guerra num país europeu. Esta possibilidade aumentou substancialmente nos últimos 5 anos e a situação poderá piorar em breve (24, 25).</p>



<p>E embora os alimentos sejam formalmente reconhecidos como infraestrutura crítica nacional, estão praticamente ausentes dos principais quadros estratégicos de resiliência e dos exercícios de avaliação de risco. Em particular, existem poucas ou nenhumas orientações claras e mecanismos institucionais dedicados à coordenação da resiliência alimentar ao nível local e comunitário (26).</p>



<p>Contudo, os sistemas alimentares mais tradicionais, as práticas tradicionais de produção de alimentos, as formas de produção alimentar de proximidade, incluindo hortas urbanas, hortas comunitárias, quintas comunitárias, pomares urbanos, a agricultura apoiada pela comunidade e a forma de produzir alimentos e o receituário local com utilização de ingredientes de produção de proximidade são um espaço de resiliência por excelência que necessita de ser protegido. O mesmo se passando com a resiliência alimentar quando entendida como um processo social, onde o “saber fazer culinário” a partir de produtos locais pode e deve ser protegido.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Como agir para manter a tradição num ambiente de profunda mudança?</h2>



<p>Depois deste diagnóstico, importa pensar em soluções. Que orientações devem ser dadas aos agentes no terreno? Como agir para manter a tradição sem inibir a necessária evolução e criatividade?</p>



<p>Uma primeira consideração, simples de memorizar poderá ser enumerada. Mas depois necessitará incorporar pensamento mais denso e ação. Em primeiro lugar, é preciso “saber o que são dedos e o que são anéis”. Em segundo lugar, é essencial saber “quantos anéis estamos dispostos a perder para não perder os dedos que amassa o pão”.</p>



<p>Traduzindo este pensamento inicial em cinco grandes áreas de intervenção:</p>



<h3 class="wp-block-heading">1 &#8211; A patrimonialização dos produtos e dos receituários, através do reconhecimento do seu caráter imaterial, pode evitar a fragmentação e até a perda de conhecimento de qualidade.</h3>



<p>Por essa razão, é fundamental reconhecer e registar documentalmente este património da cultura popular, garantindo a sua transmissão e continuidade. Antes de qualquer inovação ou introdução de mudança, deve existir sempre um mapeamento — no tempo e no espaço — das características essenciais desse núcleo tradicional. Só assim é possível compreender as linhas mestras que o sustentam.</p>



<p>A linguagem de uma tradição, entendida como o conjunto de características nucleares — produtos, técnicas e saberes — que podem ser conhecidos, dominados e mobilizados para evoluir na continuidade, constitui um exercício fundamental. Este processo varia de produto para produto e de território para território e, por isso, deve ser objeto de reflexão, discussão e registo.</p>



<p>Este processo de patrimonialização dos produtos e receituários tradicionais deve envolver uma abordagem interdisciplinar, integrando antropólogos, historiadores, técnicos de património cultural, documentalistas, investigadores académicos, nutricionistas, bem como os detentores do saber-fazer, como cozinheiros tradicionais e produtores locais. Este é um caminho importante, com o apoio do poder local, para dar condições a que estes profissionais atuam de forma complementar na identificação, análise, registo e salvaguarda do património cultural imaterial das diferentes regiões.</p>



<p>As ações fundamentais incluem o reconhecimento do caráter imaterial dos produtos e receituários, o registo documental dos saberes e práticas, o mapeamento no tempo e no espaço das tradições e a identificação das suas características nucleares</p>



<h3 class="wp-block-heading">2 &#8211; A inovação só funciona quando é participada.</h3>



<p>A introdução de novos elementos, hoje tal como no passado, deve ser sempre legitimada pelas comunidades e pelo uso que estas fazem da sua própria cultura alimentar. É nesse uso que a tradição ganha significado e vitalidade.</p>



<p>A inovação em cultura alimentar e gastronómica deve ser entendida como um processo contínuo e socialmente situado, no qual a introdução de novos elementos se legitima através da aceitação, apropriação e uso pelas comunidades que detêm essa tradição. Tal como no passado, é no exercício quotidiano da cultura alimentar — nas práticas, nos contextos de consumo e nos significados atribuídos — que a tradição se renova e adquire vitalidade. A inovação não se impõe externamente, mas emerge de dinâmicas participadas nas comunidades, nas quais o diálogo entre herança e mudança garante a continuidade identitária e cultural dos sistemas alimentares. Por exemplo através da identificação e valorização dos cozinheiros tradicionais, produtores, artesãos e famílias que praticam quotidianamente a cultura alimentar local. Através de encontros entre diferentes gerações que favorece a transmissão de saberes e a reflexão sobre mudanças desejáveis ou necessárias. Através de processos de experimentação coletiva — cozinhas comunitárias ou residências gastronómicas ou ainda através do apoio a estruturas locais de acompanhamento, como associações, confrarias, cooperativas ou conselhos comunitários, que assegurem a continuidade identitária e cultural dos sistemas alimentares no longo prazo.</p>



<h3 class="wp-block-heading">3 &#8211; A disseminação do conhecimento associado aos produtos gastronómicos e aos receituários assenta na ideia de que a tradição não obedece a uma lógica de propriedade individual, mas constitui um património coletivo.</h3>



<p>Por essa razão, pode dar origem a múltiplas derivações, ao longo do tempo e no espaço, sem perder a sua essência.</p>



<p>A autenticidade e a genuinidade dos produtos e dos receituários resultam da singularidade dos contextos de produção e da sua integração cultural. Esses contextos, tal como a própria cultura, estão em constante evolução. Uma fixação excessiva de regras pode, por isso, ter um efeito perverso, limitando a criatividade e a capacidade de adaptação.</p>



<h3 class="wp-block-heading">4 &#8211; Transformar a tradição, que é de todos, num modelo exclusivamente gourmet não resulta.</h3>



<p>A transformação da tradição gastronómica, entendida como património coletivo, em modelos maioritariamente elitizados revela-se limitadora, promotora da desigualdade social e pode conduzir, inclusive, à descaracterização de muitos produtos alimentares ou receituário tradicional. A vitalidade da tradição depende do seu enraizamento no uso quotidiano e no acesso alargado das comunidades que a produzem e reproduzem. Assim, quer a manutenção das práticas gastronómicas tradicionais, quer os processos de inovação orientados para objetivos de saúde pública e de sustentabilidade ambiental, social ou económica, devem assentar em princípios de acessibilidade, inclusão e justiça social.</p>



<p>A cultura alimentar deve permanecer um bem comum, popular e partilhado, evitando processos de apropriação simbólica ou mercantilização excessiva. Neste contexto, o turismo gastronómico exige particular cautela, devendo ser orientado por modelos responsáveis que valorizem as comunidades locais sem descaracterizar nem excluir largas margens da população.</p>



<h3 class="wp-block-heading">5 &#8211; Uma parte do tradicional — quando é saudável e sustentável — tem de se aprender a gostar na escola e nos primeiros anos de vida, nos momentos importantes da vida familiar e comunitária.</h3>



<p>A cultura alimentar de uma região é tão essencial quanto o ar que respiramos. Aprende-se desde muito cedo, sobretudo através da experiência direta com os alimentos, e constrói-se ao longo da vida, num contexto que permita a prática, o contacto com os produtos e a valorização dessa interação através do conhecimento. A escola desempenha um papel fundamental na formação de hábitos, gostos e atitudes face aos alimentos, funcionando como espaço privilegiado de contacto com os produtos locais, os saberes culinários e os valores culturais associados à alimentação.</p>



<p>Atualmente, compete às autarquias apoiar a integração de programas educativos complementares ao currículo nacional, promover projetos de educação alimentar desde os primeiros anos de escolaridade e facilitar a articulação entre escolas, famílias, produtores locais, instituições culturais e serviços de saúde. Esta possibilidade, depende agora da capacidade de cada região tomar o seu futuro nas mãos com o apoio de profissionais de educação alimentar capazes de integrar saúde, prazer, tradição gastronómica e cultura local.</p>



<h3 class="wp-block-heading">6 &#8211; Menos é mais. O que distingue e não pode ser copiado é a singularidade territorial da matéria prima e a singularidade complexa do conhecimento colocado no fabrico. Poucos e únicos, singulares ingredientes locais e uma história densa para contar como se faz.</h3>



<p>As ciências da nutrição e os seus profissionais discutem atualmente, os riscos do ultraprocessamento alimentar, ou seja, de como formulações industriais produzidas a partir de substâncias derivadas de alimentos ou sintetizadas em laboratório (como açúcares refinados, óleos modificados, amidos, proteínas isoladas) contendo frequentemente aditivos como corantes, aromatizantes, edulcorantes, emulsificantes e intensificadores de sabor — cujo objetivo é imitar ou intensificar características sensoriais de alimentos in natura ou minimamente processados, podem afetar a saúde. A evidência científica acumula-se a favor e de forma consistente associando estes alimentos a um maior risco de doenças crónicas não transmissíveis, incluindo obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, hipertensão, certos tipos de cancro e aumento da mortalidade geral.</p>



<p>Este novo conhecimento abre espaço à procura de produtos e receitas com ingredientes de grande qualidade e de proximidade, pouco processados, com a presença mínima de aditivos, mas com a complexidade própria e originalidade e tradição do saber fazer tradicional. E abre também a possibilidade de a tradição e a inovação poderem fazer o seu caminho juntos num mundo em mudança.</p>



<h2 class="wp-block-heading">Bom proveito, e saúde e prazer à mesa!</h2>



<hr class="wp-block-separator has-alpha-channel-opacity"/>



<p>*Este ensaio tem como base o “Manifesto pela criatividade na tradição gastronómica” publicado em Santa Maria da Feira a 4 de Abril de 2025 e que foi produzido em co-autoria com a Dra. Olga Cavaleiro e o Dr. Gil Ferreira, no âmbito do projeto da Rede de Cidades Criativas da UNESCO. Foi apresentado publicamente a 17 de janeiro de 2026 como lição de sapiência no Capítulo da Confraria da Fogaça da Feira.</p>



<pre class="wp-block-verse has-small-font-size">Bibliografia:<br>1) Poulain, J.-P. (2017). Sociologies de l’alimentation: Les mangeurs et l’espace social alimentaire. Presses Universitaires de France.<br>2) Montanari, M. (2006). Food is culture. Columbia University Press.<br>3) Sutton, D. E. (2001). Remembrance of repasts: An anthropology of food and memory. Berg<br>4) Montanari, M. (2013). Italian cuisine: A cultural history. Columbia University Press.<br>5) Garnsey, P. (1988). Famine and food supply in the Graeco-Roman world. Cambridge University Press.<br>6) Welch, D., &amp; Warde, A. (2015). Theories of practice and sustainable consumption. Journal of Consumer Culture, 15(1), 84–100.<br>7) Almeida, S. C., &amp; Queiroz, J. (2019). Práticas alimentares, sustentabilidade e património cultural: A dieta mediterrânica em Portugal. Etnográfica, 23(2), 331–350<br>8) Fogel, R. W. (2004). The escape from hunger and premature death, 1700–2100: Europe, America, and the Third World. Cambridge University Press.<br>9) Mozaffarian, D. (2016). Dietary and policy priorities for cardiovascular disease, diabetes, and obesity. Circulation, 133(2), 187–225.<br>10) Instituto Nacional de Estatística. (2023). População empregada por setor de atividade económica. INE.<br>11) PORDATA. (2024). Emprego total e emprego no setor agrícola (% da população ativa) – Portugal. Fundação Francisco Manuel dos Santos.<br>12) Conceição, E. M., Bastos, A. P., Brandão, I., Vaz, A. R., &amp; Ramalho, S. (2017). Cognitive flexibility and eating psychopathology. Eating and Weight Disorders, 22(2), 277–284.<br>13) Berridge, K. C., &amp; Kringelbach, M. L. (2015). Pleasure systems in the brain. Neuron, 86(3), 646–664<br>14) Macht, M. (2008). How emotions affect eating: A five-way model. Appetite, 50(1), 1–11<br>15) Dinu, M., Pagliai, G., Casini, A., &amp; Sofi, F. (2017). Mediterranean diet and multiple health outcomes: An umbrella review of meta-analyses. BMJ Open, 8(1), e018069.<br>16) IARC Working Group on the Evaluation of Carcinogenic Risks to Humans. (2018). Red meat and processed meat (IARC Monographs, Vol. 114). World Health Organization.<br>17) World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research. (2018). Diet, nutrition, physical activity and cancer: A global perspective.<br>18) Alon, I. (2020). A systematic review of international franchising. Journal of Business Research, 115, 123–135.<br>19) Climate Analytics. (2019). Climate change impacts in Portugal. Climate Analytics. <a href="https://climateanalytics.org/publications/2019/climate-change-impacts-in-portugal/" target="_blank" rel="noopener">https://climateanalytics.org/publications/2019/climate-change-impacts-in-portugal/</a><br>20) Nunes, L. J. R., Meireles, C. I. R., Pinto Gomes, C. J., &amp; Almeida Ribeiro, N. M. C. (2019). Climate change impact on water resources in southern Portugal. Climate, 7(6), 78.<br><a href="https://doi.org/10.3390/cli7060078" target="_blank" rel="noopener">https://doi.org/10.3390/cli7060078</a><br>21) Agência Portuguesa do Ambiente (APA). (2022). Relatório intercalar da Estratégia Nacional de Adaptação às Alterações Climáticas (ENAAC 2020–2050). APA. <a href="https://apambiente.pt/sites/default/files/_Clima/Relat%C3%B3rio%20Intercalar_ENAAC_21-22.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://apambiente.pt/sites/default/files/_Clima/Relat%C3%B3rio%20Intercalar_ENAAC_21-22.pdf</a><br>22) INE – Instituto Nacional de Estatística. (2024, 15 de novembro). Press release: Taxa de fecundidade total e indicadores demográficos.<br>23) Eurostat. (2025). Demography of Europe – 2025 edition. <a href="https://ec.europa.eu/eurostat/web/interactive-publications/demography-2025" target="_blank" rel="noopener">https://ec.europa.eu/eurostat/web/interactive-publications/demography-2025</a><br>24) WHO, Ziglio E. Strengthening resilience: a priority shared by Health 2020 and the Sustainable Development Goals. Copenhagen: World Health Organisation Regional Office for Europe, 2017<br>25) Scottish Government. How Scotland prepares. <a href="https://ready.scot/how-scotland-prepares" target="_blank" rel="noopener">https://ready.scot/how-scotland-prepares</a>. 2024<br>26) National Preparedness Commission (2025). Lang T, Neumann N, So A. Just in Case: 7 steps to narrow the UK civil food resilience gap.</pre>



<p></p>
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