A publicação de um novo guia alimentar nos Estados Unidos suscita uma análise ambivalente, com aspetos positivos e limitações relevantes. Entre os contributos favoráveis destaca-se o reconhecimento do papel central da alimentação na promoção da saúde pública, bem como a valorização dos alimentos frescos e de uma abordagem centrada nos padrões alimentares, em detrimento de uma perspetiva exclusivamente nutricional.
Contudo, a multiplicação de guias alimentares pode gerar confusão entre profissionais e consumidores. A nova pirâmide não apresenta uma hierarquização clara dos alimentos, dificultando a interpretação das porções recomendadas. Adicionalmente, não distingue adequadamente os diferentes níveis e objetivos do processamento alimentar, aspeto crítico à luz da evidência científica atual.
O guia promove ainda um consumo elevado de proteína de origem animal, superior ao recomendado por referenciais internacionais como a Comissão EAT-Lancet, sem integrar considerações ambientais. A inclusão de gorduras de origem animal para confeção e a recomendação de lacticínios integrais levantam preocupações quanto ao consumo excessivo de gordura saturada, tornando difícil cumprira orientação de não exceder 10% do valor energético total, presente no mesmo documento. A recomendação relativa aos açúcares é igualmente vaga e de difícil aplicação prática.
Em termos de comunicação ao consumidor, importa sublinhar que os lacticínios magros são suficientes para garantir o aporte de nutrientes essenciais e que existem fontes alimentares alternativas, menos energéticas, de micronutrientes como a vitamina A. No contexto português, este guia não parece acrescentar valor face à Roda dos Alimentos, amplamente validada e culturalmente adequada.
