Há 50 anos, um conjunto de personalidades decidiu escrever o futuro e criou o Curso de Nutricionismo na Universidade do Porto, que viria a ser o embrião de uma nova profissão em Portugal e de um modo novo e disruptivo de olhar para a relação entre a alimentação e a saúde humana no nosso país

Uma forma de comemoramos cinco décadas deste percurso notável na sociedade portuguesa e honrarmos a memória destes visionários é precisamente olharmos de novo para a frente e em conjunto podermos pensar que futuro queremos construir. Este novo futuro carrega agora 50 anos de história, mas não é por isso que não pode ser ousado e irreverente como o foi em 1976, após uma revolução social, cultural e política que mudou a vida do país.

Aliás, só seremos futuro, se soubermos continuar a liderar a inovação, a fazer diferente e melhor e a mudar coisas que sempre foram feitas assim…porque era assim. Até porque o mundo nestes últimos 50 anos acelerou e as mudanças, que sempre aconteceram, estão a acontecer agora a uma velocidade superior.

Olhar para o futuro significa, por isso, observar o mundo e as suas novas velocidades

Continuamos a abrir a boca pelas mesmas razões que o fazíamos no passado, por prazer, por socialização, por necessidade biológica ou por cultura, mas agora afetados nestas escolhas por um sistema alimentar cada vez mais longínquo, mas complexo e mais influenciado por fatores económicos e políticos que temos mais dificuldade em controlar.

Em paralelo, as diferenças sociais e económicas continuam a explicar diferenças significativas no acesso a alimentos saudáveis. Hoje o excesso calórico a baixo custo substituiu a escassez calórica nas camadas mais desfavorecidas ainda prevalente nos anos 70 do século passado. Mas o gradiente social continua a determinar as escolhas menos saudáveis e a desnutrição continua a afetar gravemente os mais desfavorecidos.

O mesmo se passa com o acesso à informação para poder tomar decisões. A informação de qualidade e de fácil compreensão continua a não chegar a quem necessita, já não por escassez de informação de qualidade, mas agora por abundância de informação de má qualidade. E pela incapacidade crescente de se distinguir o que são fontes credíveis ou apoios à tomada de decisão produzidos de forma errada.

Hoje sabemos mais sobre como as nossas escolhas alimentares diárias afetam a saúde do planeta. E como a saúde do planeta irá determinar, cada vez mais, a nossa alimentação e logo a nossa saúde.

Apesar do desenvolvimento tecnológico, a compreensão dos alimentos e da sua composição e de como interagem com o nosso organismo continua por acontecer. Porque, entretanto, os alimentos são cada vez mais processados e integram cada vez mais ingredientes.

A sociedade está, pois, muito diferente e a nutrição e os nutricionistas do futuro terão de ser diferentes ou não serão parte deste futuro.

O desafio que nos é colocado é construir uma profissão atenta ao mundo e capaz de operar conjuntamente a mudança nos diferentes níveis onde opera, para que a profissão continue a ser relevante e possa contribuir para a saúde e bem-estar do ser humano e do planeta.

O futuro passará pela compreensão dos sistemas alimentares globais, pela capacidade de ser uma voz ativa e audível num mundo ruidoso e global (como o fazer?), pelo conhecimento profundo do alimento e da tecnologia que o modifica cada vez mais, pelo conhecimento desta relação entre a composição do alimento e a saúde humana ao nível individual, tudo isto sem perder a capacidade de compreender e introduzir na prática diária, o imperativo ético de combater as desigualdades provocadas pela incapacidade de aceder a alimentos saudáveis, de preservar as identidades alimentares de cada geografia e a biodiversidade associada e a de proteger o nosso planeta e seus ecossistemas que são o principal garante da nossa saúde e qualidade de vida.

Os tempos da nutrição irão obrigar a trabalhar em equipas multidisciplinares, a não olhar às fronteiras definidas nos mapas, a integrar a tecnologia e a ética alimentar na atividade diária porque o sistema alimentar e os problemas ambientais e sociais serão cada vez mais globais, mas onde e apesar de tudo o ser humano continuará a ser o mesmo de há milhares de anos.

Esperamos que este espaço de discussão nos ajude a pensar no desenvolvimento de uma profissão que, enquanto o ser humano continuar a abrir a boca, terá sempre futuro.

Pedro Graça
Diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto

Escrito por

prof pedro graça nutricionista
Nutricionista, Professor Associado na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto | Website

Pedro Graça Diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto