Mais uma prova de que o mundo está virado de cabeça para baixo?

A edição 2025-2030 das Diretrizes Alimentares para Americanos (DGAs) foi lançada a 7 de janeiro de 2026 com o slogan “comer alimentos reais” e uma postura mais forte na limitação dos açúcares adicionados e dos alimentos altamente processados. Estas diretrizes são atualizadas a cada cinco anos pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos da América (USDA) e Departamento de Saúde e Serviços Humanos (HHS), sendo utilizadas por agências federais, decisores políticos de nutrição e profissionais de saúde, e pelo público em geral. Apesar de serem destinadas à população estado- unidense, estas diretrizes são (eram?) tomadas como referenciais por muitos outros países. 

As Diretrizes Alimentares para Americanos 2025-2030 recuperaram a representação gráfica em forma de pirâmide, só que desta vez invertida, salientando alimentos como bife, leite integral e manteiga. A proeminência visual destas opções pode levar-nos a pensar que os limites de gordura saturada foram eliminados, o que não aconteceu pois é mantido o antigo limite superior de 10% do valor energético diário da dieta. Estes detalhes são importantes, pois as imagens e os slogans podem ser melhor memorizados do que os detalhes subtis e o texto subjacente. 

O Comité Consultivo que elabora estas diretrizes terá despendido cerca de 2 anos a avaliar os dados mais recentes da investigação em nutrição humana. Contudo, a atual administração dos EUA nomeou um painel adicional para rever o relatório no último ano, o que, ao que parece, terá contribuído para alguns dos aspetos mais polémicos do documento.
Do que se pode ler no documento, e nos múltiplos comentários que o mesmo suscitou, creio ser possível concluir que este tem aspetos positivos, negativos e alguns mesmo incompreensíveis.
Com algumas importantes e polémicas exceções, muitas das recomendações são continuadas das diretrizes precedentes. São mantidas as porções recomendadas para grupos de alimentos como frutas, legumes, cereais integrais, laticínios e óleos. A limitação da ingestão de gordura saturada (<10% do valor energético total diário da dieta) e sódio mantiveram-se iguais. As novas DGAs continuam também a dar prioridade ao consumo de alimentos integrais ou minimamente processados.

O total de porções diárias para o grupo de alimentos ricos em proteína está no nível proposto pelo Comité Consultivo original. Contudo, neste ponto surge um dos pontos controversos destas recomendações, ao dar prioridade a fontes de proteínas de origem animal em detrimento de um padrão “plant-based”. Embora as novas DGAs mencionassem proteínas de origem vegetal (feijão, ervilhas e lentilhas), a carne foi recomendada em primeiro lugar e a proteína vegetal por último. Estas diretrizes estão muito centradas na proteína de origem animal, especialmente carnes vermelhas. Esta abordagem surpreende, entre outras coisas, pelo facto de a ingestão de proteína entre os norte-americanos ser considerada como globalmente adequada. As novas DGAs sugerem que os adultos consumam entre 1,2 a 1,6 gramas de proteína por quilograma de peso corporal por dia, isto é, 50 a 100% acima do recomendado anteriormente. As necessidades de proteína são variáveis, mas esta variabilidade nas necessidades deve ser ajustada a nível individual por um profissional de saúde, uma vez que o consumo excessivo de proteína pode ter implicações não desejáveis para a saúde a longo prazo. É compreensível a necessidade de ajustar a ingestão de proteínas em adultos mais velhos, mas o tom das recomendações parece sugerir que há uma desadequação por défice generalizado da ingestão de proteína, o que manifestamente não se observa a nível populacional naquele país.

Outro ponto controverso está na recomendação de ingestão laticínios integrais (três porções diárias). Com grande destaque dado à carne, a menção direta da manteiga e do sebo de vaca como gordura culinária, e o realce dos laticínios integrais, parece difícil seguir a recomendação das DGAs de consumir no máximo 10% do valor energético total da dieta a partir de gordura saturada.

De entre os aspetos positivos destas diretrizes temos o apelo a evitar alimentos altamente processados embalados, preparados, prontos a comer ou outros alimentos com elevado teor de sal e/ou açúcar, assim como, evitar bebidas edulcoradas com açúcar.

As novas DGAs adotam uma posição global rigorosa sobre os doces, salientando que “nenhuma quantidade de açúcares adicionados ou adoçantes não nutritivos é recomendada ou considerada parte de uma dieta saudável ou nutritiva.” Na prática, recomenda que nenhuma refeição deva conter mais de 10 gramas de açúcares adicionados. Isto representa uma redução em relação ao limite anterior dos DGAs de 10% das calorias diárias (por exemplo, 50 gramas de açúcar adicionado por dia numa dieta de 2.000 calorias). A restrição recomendada no consumo de alimentos com açúcar adicionado parece exigente particularmente em idade pediátrica, pois recomenda que as crianças evitem açúcares adicionados até aos 10 anos de idade. As DGAs são claras quanto a evitar o açúcar adicionado, mas são muito menos claras sobre como estas recomendações podem ser implementadas no dia a dia.

São também positivas a prioridade ao consumo de cereais integrais ricos em fibra e a redução do consumo de alimentos obtidos a partir de cereais refinados.

A importância dos ácidos gordos essenciais é aparente nestas diretrizes, apesar de muita da ciência publicada neste tópico colocar maior atenção nas gorduras ricas em ácidos gordos polinsaturados obtidas a partir de alimentos vegetais e peixes gordos. O facto de o organismo ser capaz de sintetizar ácidos gordos saturados, mas não conseguir ácidos gordos polinsaturados essenciais justifica a maior preocupação com a ingestão de alimentos ricos nestes ácidos gordos.

A orientação de “gordura saudável” agrupa alimentos de origem animal com maior teor de gordura saturada (como carnes e laticínios integrais) com alimentos de origem vegetal com menos gordura saturada. Não há qualquer referência sobre quais destes alimentos devem ser escolhidos com mais ou menos frequência para ajudar a manter-se dentro do limite superior. E na pirâmide, o bife, o queijo, o leite gordo e a manteiga parecem ter um papel de destaque tornando confusa a perceção do que é recomendação de gordura saudável.

Por comparação com as anteriores, as novas diretrizes são breves, o que aparentemente as tornaria mais fáceis de usar pelo público. No entanto, há áreas em que as recomendações são bastante vagas, como no que diz respeito ao consumo de álcool. Aqui as DGAs apresentam uma recomendação não quantificável de “consumir menos álcool para melhor saúde”. Sem limites concretos, é difícil para as pessoas perceberem o que “menos” realmente significa. Para quem precisa de orientações mais específicas, as novas DGAs podem ser difíceis de usar. Creio que este ponto fica demostrado pela transcrição das recomendações públicas sobre álcool do Dr. Mehmet Öz, diretor dos Centers for Medicare & Medicaid Services dos EUA:

  • “Sem Limites Rigorosos”: As diretrizes de 2025-2030, apoiadas pelo Dr. Öz, removeram limites diários específicos de consumo de bebidas (anteriormente um para mulheres, dois para homens), focando-se numa recomendação geral para consumir menos para uma melhor saúde.
  • “Não bebas ao Pequeno-Almoço”: O Dr. Öz afirma frequentemente que, embora beber moderadamente seja aceitável, não deve ser consumido cedo no dia.
  • “Lubrificante Social”: O Dr. Öz argumenta que o álcool facilita a ligação e a socialização, o que traz benefícios para a saúde, salientando que “provavelmente não há nada mais saudável do que divertir-se com amigos de forma segura”.
  • “A moderação é fundamental”: Embora não defenda a abstinência total, o Dr. Öz esclarece que o consumo excessivo de álcool é prejudicial e que, no “melhor cenário”, ninguém beberia de todo.
  • “Contexto do Consumo de Álcool”: O Dr. Öz enfatiza que o consumo deve ser feito de forma segura, idealmente em eventos sociais.

As escolhas alimentares apresentam um efeito ambiental relevante. As recomendações contidas no documento parecem não considerar este efeito no meio ambiente, assim como, fatores culturais e socioeconómicos.
Num mundo ideal, as DGAs refletem o melhor e mais recente conhecimento produzido pela ciência que o Comité Consultivo passou dois anos a rever e sintetizar. Há, contudo, relatos da ocorrência de desvios politicamente motivados em relação às recomendações do relatório e que estes tenham sido feitos sem transparência ou justificação científica.

Numa análise simplista podemos salientar do relatório das Diretrizes Alimentares para Americanos 2025-2030 o seguinte: evolução positiva nas recomendações sobre açúcar adicionado, provável sobrevalorização da componente proteica da dieta e contradições entre a componente visual da pirâmide e o limite proposto para as gorduras saturadas.

Escrito por

Alejandro Santos 1
Nutricionista, Professor Associado na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação, Universidade do Porto | Website