A desinformação na área da saúde e da alimentação é um tema particularmente relevante.

No Relatório sobre Riscos Globais de 2024 do Fórum Económico Mundial, a desinformação e a informação errada foram classificadas como o risco global mais grave a curto prazo.

A desinformação na área da saúde compromete a confiança do público no sistema de informação como um todo, incluindo aqui a confiança nos seus profissionais. Leva as pessoas a questionarem a integridade das fontes de informação, conduzindo a um círculo vicioso de incerteza. Este círculo vicioso pode acrescentar incerteza a um contexto já de si ansiogénico, amplificando a vulnerabilidade dos cidadãos ao conteúdo de desinformação e impedindo as pessoas de fazerem escolhas informadas ou de encontrarem informações fiáveis quando existe um volume significativo de notícias. Em paralelo, a desinformação na área da saúde tende a polarizar os debates públicos e a acentuar a oposição entre grupos.

Embora a desinformação em saúde já constituísse um problema relevante antes da pandemia, a COVID-19 veio expor, de forma particularmente evidente, o potencial do seu impacto. Simultaneamente, este período permitiu aprofundar o conhecimento sobre os mecanismos de disseminação da desinformação e as estratégias mais eficazes para combatê-la.

O fact-checking tem sido uma das principais estratégias utilizadas para combater a desinformação, sendo já numerosos os estudos publicados sobre a sua relevância e efetividade.

De modo geral, a evidência aponta para benefícios na correção de informação falsa, mas também existem riscos que não devem ser negligenciados. Apesar de o fact-checking ser geralmente eficaz na redução de crenças falsas, a literatura aponta para possíveis efeitos não intencionais em determinados contextos, incluindo o aumento da familiaridade com alegações falsas, a manutenção da visibilidade pública do tema e a menor eficácia em ambientes fortemente polarizados.

O assunto é complexo. Acresce que as estratégias de combate e mitigação de desinformação necessitam de adaptação contínua à evolução tecnológica e às dinâmicas das redes sociais. Razões mais do que suficientes para refletir sobre a desinformação (informação falsa ou manipulada partilhada com intenção de induzir erro) em alimentação e nutrição.

O fact-checking e sua relevância

Nos últimos anos, cresceu a produção científica sobre a importância do fact-checking no combate à desinformação, especialmente após o crescimento das fake news nas redes sociais, durante determinados períodos como eleições, a pandemia de COVID-19 e a vacinação ou ainda a desinformação científica/alimentar.

De um modo geral, existe evidência consistente de que iniciativas de fact-checking podem reduzir crenças falsas e contribuir para melhorar competências de avaliação crítica da informação (literacia mediática). Existem também indícios de que estas práticas podem favorecer perceções de transparência jornalística e confiança na informação científica, embora estes efeitos sejam mais dependentes do contexto e do grau de confiança prévia nas instituições

Trabalhos relevantes de autores como Nathan Walter e colegas que em 2020 realizaram meta-análises de referência sobre o tema e depois de autores como Ethan Porter e Thomas J Wood, Nathan Walter e Riva Tukachinsky e mais recentemente de Bozhena Ivanytska e colegas sugerem que o fact-checking tem um efeito positivo e estatisticamente robusto na correção de crenças falsas, contudo as correções podem ser menos eficazes se a desinformação tiver sido atribuída a uma fonte credível (profissionais de saúde por ex.), se tiver sido repetida várias vezes antes da correção ou se tiver existido um maior intervalo de tempo entre a divulgação da desinformação e a correção. Da mesma forma, a capacidade de corrigir a desinformação política através da verificação de factos é substancialmente atenuada pelas crenças, ideologias e conhecimentos pré-existentes dos participantes, podendo as pessoas continuar a acreditar em informação falsa mesmo após correção.

Estamos a crer que o mesmo poderá acontecer na área da alimentação em temas de alta polarização, como acontece com o efeito do consumo de carne ou com dietas vegetarianas ou ainda o impacto dos alimentos ultraprocessados na saúde. De realçar que estes temas, que mobilizam e polarizam o debate, estão muitas vezes associados a interesses comerciais e económicos mais vastos.

Autores como Brendan Nyhan e Jason Reifler descreveram em 2010 que as tentativas de intervenção para corrigir notícias falsas ou episódios de desinformação podem falhar ou até reforçar crenças erradas em grupos ideologicamente comprometidos, lançando o debate sobre o “Backfire effect”. Estudos posteriores mostraram que o “Backfire Effect” é menos frequente do que se pensava inicialmente, mas é algo que vale a pena não se esquecer. Trabalhos experimentais mais recentes de autores como Ingrid Bachmann e Sebastián Valenzuela confirmaram que certos formatos de fact-checking são eficazes na redução das perceções erradas das pessoas, no entanto, estes efeitos positivos na redução das crenças têm um custo: em comparação com os grupos de controlo, os utilizadores expostos a verificações de factos políticos confiam menos nas notícias e consideram os meios de comunicação mais tendenciosos, especialmente após lerem correções que desmentem desinformação favorável às suas atitudes. Desta forma, a desinformação não só influencia as convicções das pessoas, como também pode minar a confiança do público nos meios de comunicação social e em instituições de referência, como a Organização Mundial da Saúde.

Um dos aspetos mais importantes relacionados com o fact-cheking é a sua persistência no tempo. Alguns trabalhos sugerem que os efeitos do fact-checking desaparecem em grande parte no prazo de duas semanas e não produzem repercussões duradouras nas crenças. Outros e em concreto, quando o fact-checking é sobre factos políticos argumentam que este processo é muito incompleto, atingindo apenas uma parte ínfima das narrativas proeminentes de desinformação. E que, mesmo quando partilhadas, as verificações de factos são quase sempre disseminadas dentro das comunidades partidárias, em vez de entre elas.

Será que este efeito também não poderá ser observado na área da alimentação e da nutrição, onde a circulação de desinformação parece ser particularmente favorecida por mecanismos de confirmação identitária e de confirmação de vieses, nos quais os utilizadores procuram sobretudo conteúdos que validem crenças, estilos de vida ou práticas alimentares previamente adotadas, em detrimento de informação objetiva orientada para a tomada de decisão?

A especificidade das Ciências da Nutrição

De facto, a literatura científica sugere que a nutrição e a alimentação constituem uma das áreas mais vulneráveis à desinformação digital. Por várias razões. Para muitos cidadãos, a alimentação não é percecionada apenas como uma questão técnica ou científica, capaz de influenciar a saúde, mas também como uma questão moral, cultural, ideológica e identitária. Assim, quem procura informação tende, muitas vezes, a procurar conteúdos que validem estilos de vida já adotados, reforcem convicções prévias e confirmem práticas alimentares específicas, o que torna esta uma área de fácil apropriação para influenciar. Por outro lado, devido à forte mediatização da alimentação e aos interesses comerciais em jogo, trata-se de um espaço de grande interesse para promover opiniões e narrativas favoráveis a produtos ou modelos de consumo específicos.

Este espaço de apropriação e confronto com a ciência — que também não é neutra — manifesta-se com particular frequência na relação entre consumo alimentar e doença, na qual a complexidade dos padrões alimentares, da composição dos alimentos e da multicausalidade das doenças associadas à alimentação dificulta a formulação de conclusões ou vereditos definitivos.

Este é um espaço onde a desinformação cresce. Apesar de hoje reunirmos evidência sobre a probabilidade elevada de existir relação entre o consumo alimentar (por exemplo, de carne processada, de bebidas açucaradas ou alcoólicas) e o aparecimento de doença, nomeadamente através de estudos observacionais, da compreensão dos mecanismos biológicos e de revisões sistemáticas e meta-análises, a robustez da associação depende da consistência de múltiplas associações e do seu sentido. Essa complexidade é facilmente explorada pela desinformação e pela criação de dúvida.

Um exemplo destas especificidades na área alimentar foi o confronto entre o relatório EAT-Lancet” e as campanhas pró-carne como a #Yes2Meat. Apesar de a evidência científica estar do lado do relatório e dos seus signatários, que sugeria a necessidade de reduzir globalmente o consumo de carne para obter mais saúde e proteger o ambiente, esta mensagem foi muito contestada nas redes sociais e incapaz de se sobrepor às mensagens a favor da manutenção do consumo de carne.

Apesar de as recomendações propostas no relatório terem uma base científica sólida, ao ignorarem a identidade cultural, a tradição alimentar e se basearem excessivamente em restrições normativas, não conseguiram fazer frente a uma estratégia de relações públicas ágil, muito agressiva e fortemente financiada pela indústria da carne. As campanhas pró-carne e os influenciadores envolvidos contornaram a ciência, apelando à emoção, conseguindo enquadrar as recomendações como um ataque à liberdade individual e à livre escolha por parte de uma certa elite científica.

Como melhorar o combate à desinformação?

A Organização Mundial da Saúde defende que o combate à desinformação deve assentar numa abordagem integrada, baseada não apenas na correção de informação falsa, mas também na construção da confiança pública, da literacia mediática e da participação comunitária. Outros autores como Bozhena I e colaboradores sugerem a necessidade de apoiar estrategicamente redes independentes de verificação de factos, reforçam a necessidade de se integrar o investimento na literacia digital e integrar o pensamento crítico nos programas curriculares; e ainda a necessidade de apoiar iniciativas nacionais de cibersegurança no âmbito das políticas públicas.

Uma das sugestões centrais é a necessidade de melhorar a qualidade do fact-checking. A capacidade de corrigir informação falsa ou enganosa e a minimização dos riscos dependem, em grande medida, da forma como o fact-checking é concebido e comunicado, bem como da rapidez da resposta. Quanto mais tempo uma informação falsa circula sem contraditório, maior tende a ser a sua perceção de credibilidade. A desconstrução de crenças falsas deve ainda evitar estratégias de ridicularização ou confronto agressivo nas redes sociais, uma vez que estas podem aumentar a polarização, reforçar identidades grupais e aprofundar a desconfiança relativamente às instituições de referência.

O fact-checking organizado e institucionalizado em Portugal começou realmente a consolidar-se entre 2018 e 2019, com o jornal Polígrafo, o primeiro jornal digital português dedicado exclusivamente à verificação de factos, e, posteriormente, com o programa televisivo Polígrafo/SIC, descrito como o primeiro programa de televisão português dedicado exclusivamente ao fact-checking.

Para além do fact-checking, têm sido exploradas outras estratégias, como a comunicação descentralizada e a utilização de microinfluenciadores, que, em determinados contextos, podem revelar-se mais eficazes do que campanhas nacionais de comunicação. Estas abordagens assentam na utilização de interlocutores da comunidade local, percecionados como próximos e credíveis, com maior capacidade de gerar confiança e de amplificar mensagens junto de públicos específicos.

Outra possibilidade é a sensibilização de influenciadores digitais e a integração de práticas de reflexão crítica no seio destes grupos, como forma de reduzir a propagação de informação de má qualidade em saúde. Esta foi a estratégia utilizada recentemente pela Direção-Geral de Saúde através do “Guia para influenciadores digitais e anunciantes – Informação sobre as regras e boas práticas na comunicação comercial de substitutos de leite materno e alimentos para bebés e crianças pequenas no meio digital.”

Neste modelo de abordagem do problema, diversos artigos sugerem a utilização de profissionais de referência, nomeadamente profissionais de nutrição, investigadores, comunicadores e educadores, como divulgadores regulares de informação de qualidade e mitigadores da desinformação (e ainda aqui). Estes especialistas, podem desempenhar um papel fundamental na avaliação da informação sobre alimentação e nutrição à luz da evidência científica e como referência para interagir com os cidadãos. Contudo, três aspetos merecem reflexão. A necessidade de melhorar a capacidade de comunicação dos profissionais de nutrição. Frequentemente, a comunicação em saúde é excessivamente técnica, pouco acessível ou pouco apelativa. A comunicação eficaz deve ser clara, simples, emocionalmente relevante, visual e facilmente partilhável. Outro aspeto importante é a necessidade de evitar as armadilhas do confronto científico nas plataformas digitais, nas quais raramente se ganha, dando preferência à divulgação de informação de qualidade. Por fim, a necessidade dos profissionais de saúde que comunicam sobre nutrição e alimentação, nomeadamente os nutricionistas, indicarem com clareza a existência ou não de conflito de interesses sempre que comunicam publicamente.

Para além dos profissionais de saúde, as instituições públicas de referência como universidades e instituições de saúde devem ter um papel importante no combate à desinformação, assumindo na sua missão e objetivos, a divulgação de ciência e a reflexão sobre este tema. E criando condições para que o conhecimento existente e produzido no interior destas instituições seja capaz de chegar aos cidadãos e, de forma regular e capilar, a outras instituições da sociedade civil. Um laboratório experimental deste processo na academia tem sido, desde 2019, o portal “Pensar Nutrição – Combater a desinformação” da FCNAUP.

Outra dimensão do combate à desinformação passa pelo reforço da literacia científica, mediática e digital da população. Tal implica melhorar a capacidade dos cidadãos para interpretar estudos científicos, distinguir evidência de opinião, compreender o conceito de consenso científico e verificar a credibilidade das fontes de informação, sendo que as instituições públicas de saúde e academia devem participar ativamente neste esforço. Entre as estratégias de reforço da literacia científica, tem ganho relevância o conceito de prebunking, uma estratégia preventiva que procura antecipar a desinformação, preparando os cidadãos para reconhecer técnicas de manipulação e narrativas enganosas antes de estas serem difundidas. Ao invés de apenas corrigir informação falsa depois da sua circulação, o prebunking funciona como uma espécie de “inoculação cognitiva”, um formato preventivo capaz de regularmente aumentar a resistência das pessoas à desinformação.

Por fim, não deve ser desconsiderada a necessidade de regulação da disseminação de informações falsas ou enganosas sobre nutrição nas plataformas digitais e redes sociais, assegurando, naturalmente, o equilíbrio entre a proteção da saúde pública, a liberdade de expressão e a preservação da confiança pública. Se cresce a regulação sobre a comunicação dos profissionais de nutrição nos formatos digitais, nomeadamente através das ordens profissionais e códigos de ética, faz sentido que, em paralelo, todos aqueles que comunicam sobre os mesmos temas possam ser igualmente verificados e até sancionados quando colocam em causa a saúde dos cidadãos.

Num contexto em que a informação circula mais depressa do que a sua verificação e em que a autoridade é frequentemente confundida com visibilidade, o papel dos nutricionistas ultrapassa hoje a dimensão exclusivamente assistencial. O combate à desinformação alimentar e nutricional exige profissionais capazes não só de interpretar evidência científica, mas também de comunicar com clareza, contextualizar recomendações e participar ativa mas refletida nos espaços digitais onde as decisões dos cidadãos são influenciadas. O desafio está agora em criar condições para que esta participação possa ser efetiva e benéfica para os cidadãos reforçando a confiança nos profissionais envolvidos e reduzindo os riscos envolvidos.

Escrito por

Nutricionista, Professor Associado na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto | Website

Pedro Graça Diretor da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto

Nutricionista, Professora Auxiliar Convidada na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto | Website