Manifesto pela Preservação da Dieta Mediterrânica

O modelo cultural de Dieta Mediterrânica (DM), evidente nas celebrações e festividades populares que celebram os alimentos, foi reconhecido pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade. É um património a proteger, dada a sua fragilidade e continuada erosão nas atuais sociedades mediterrânicas.

A preservação da DM implica uma participação transnacional dos Governos, dos setores da cultura, agricultura e saúde, e dos cidadãos, de forma a preservar a diversidade cultural, a biodiversidade, proteger a capacidade produtiva e regenerativa dos solos e a saúde das populações. Apesar deste consenso, temos de ir mais além e identificar os setores e áreas de intervenção onde podemos fazer a diferença. Este é um contributo para a necessária discussão.

1) Dieta significa modo de vida, a “daiata” dos antigos gregos. No mediterrâneo, uma importante via de comunicação e comércio na história da humanidade, esse modo de vida esteve sempre em rápida mudança, expandindo-se e adaptando-se nos últimos 8000 anos. Uma das principais características da DM é, por isso, a adaptação e a diversidade. Adaptação ao clima, a novas plantas, a novos conhecimentos e a influências entre culturas. Preservar a DM é preservar a biodiversidade e a diversidade cultural.

2) A Dieta Mediterrânica apresenta várias expressões regionais, consequência de microclimas, condicionantes culturais, religiosas e de saúde. Em todas elas coexiste um refinado e denso conhecimento culinário, um grande reconhecimento da importância das refeições, de quem cozinha e da convivialidade em torno da mesa. O convívio não é tempo perdido. A preservação da DM é a preservação do tempo das famílias para produzir, comprar, cozinhar e estar juntos à mesa.

3) A Dieta Mediterrânica tem uma relação direta com os ciclos astrais e agrários. A Dieta Mediterrânica adapta-se ao clima. É essencialmente sazonal, varia em função das estações do ano e dos seus alimentos frescos de produção local. A preservação da DM é a preservação da capacidade de produzir perto de onde vivemos e de conseguirmos comprar de forma justa a quem produz. A preservação da DM é a preservação de quem produz localmente e o fortalecimento das economias regionais.

4) A Dieta Mediterrânica é reconhecidamente promotora da saúde. Pelos alimentos que incorpora (azeite, cereais, leguminosas, fruta…), pela forma como os prepara, mas principalmente pela frugalidade. Frugalidade significa comer em função das necessidades energéticas e comer em qualidade e não em quantidade. Só assim se evitam doenças como a obesidade ou a diabetes. A preservação da DM passa por valorizar a comida de qualidade, mas não o consumo excessivo.

5) A Dieta Mediterrânica inclui pequenas quantidades de carne e peixe, mas é um modelo alimentar de base essencialmente vegetal. A DM em Portugal caracteriza-se pela maior quantidade de pescado, pelas sopas e pratos de panela. A preservação da DM passa pelo reconhecimento destes sabores e saberes na escola, onde o comer mediterrânico e o saber cozinhar mediterrânico devem fazer parte do dia-a-dia das escolas nacionais e dos seus objetivos de ensino.

6) A Dieta Mediterrânica sempre foi capaz de alimentar a família alargada e as comunidades, quer nas aldeias, quer em cidades populosas. Foi reconhecida e praticada por todas as camadas da população. A Dieta Mediterrânica não é uma dieta gourmet, cara e acessível apenas a poucos. A preservação da Dieta Mediterrânica deve possibilitar que todos tenham acesso a ela independentemente da sua capacidade económica.

7) A Dieta Mediterrânica, sendo adaptativa, acolheu o milho, a batata e o tomate nos séculos XVI/XVII. Introduziu a preservação pelo frio no século XX que permitiu reduzir o sal. E está a acolher uma maior participação do homem na compra e no cozinhar dos alimentos no séc. XX – XXI. Preservar a DM é reconhecer o trabalho da mulher como guardiã da alimentação saudável da família, a herança e transmissão de conhecimentos e segredos culinários do passado, mas também hoje a participação do homem na partilha das tarefas domésticas da alimentação e outras.

8) A Dieta Mediterrânica tem um enorme impacto na saúde das populações e este aspeto é hoje muito valorizado pela sociedade. Para além disso, a informação de base científica que relaciona a DM com a preservação da saúde permite a criação de linhas orientadoras coerentes que facilitam a intervenção e a avaliação do seu impacto. A preservação da DM passa pelo envolvimento e capacitação do setor da saúde para este assunto.

9) As alterações climáticas, com o aumento das temperaturas médias, redução da pluviosidade, a demografia e desertificação, colocarão o acesso à água, a produção alimentar e o relacionamento humano sob grande pressão. A DM é reconhecidamente um modo de consumir protetor do meio ambiente. Através do consumo alimentar mais consciente poderemos fazer a diferença no planeta. A preservação da DM representa hoje um modo de preservação do planeta onde o setor do ambiente terá uma palavra central.

10) A Dieta Mediterrânica resulta da interação equilibrada entre o homem e a natureza, modelou social e culturalmente todas as sociedades mediterrânicas e influenciou outras regiões do planeta. A preservação da DM é a preservação da cultura popular e alimentar das sociedades do Sul (Sul da Europa, Norte de África e Medio Oriente) devendo este processo ter uma participação central do setor da cultura.

Porto, 12 de outubro de 2018

Escrito por

More Articles for You

Escola de Nutrição do Porto – Ensaio

Conceito de Escola – O que a define A ideia de Escola é uma construção consolidada e construída ao longo …

COVID-19 e Segurança Alimentar

A COVID-19 é uma doença infeciosa aguda do trato respiratório (podendo ser grave), causada por um novo tipo de coronavírus …

O mundo pós-COVID e o novo papel dos Nutricionistas – Ensaio

A COVID-19 ao quebrar a velha dicotomia entre doença infeciosa e crónica e ao criar grupos de risco em torno …

Como fazer uma alimentação saudável e sustentável

A alimentação inadequada, com a decorrente má-nutrição, constitui a principal causa de problemas de saúde no mundo. Hoje, acima de …

Breves notas sobre Obesidade e COVID-19

Nos últimos dias tem vindo a avolumar-se informação científica sobre a relação entre a pandemia por SARS-CoV-2 e a “pandemia” …

Mudanças no sistema alimentar pós COVID-19

Ao longo das últimas semanas refletimos com os nossos estudantes do Mestrado em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição sobre …