Resistência aos Antibióticos

Uma ameaça global na perspetiva da segurança alimentar

Numa revisão recente sobre a transmissão de bactérias ao Homem através dos alimentos abordamos a implicação da cadeia alimentar na disseminação da resistência aos antibióticos.

Este é um tema central para a microbiologia alimentar e para a segurança dos alimentos globalmente, razão pela qual exploramos este assunto aqui.

A resistência aos antibióticos como ameaça à saúde pública

Os antibióticos (moléculas com atividade antibacteriana que matam ou impedem o crescimento das bactérias) são indispensáveis para o tratamento e prevenção de determinadas infeções bacterianas, quer no Homem, quer nos animais. A resistência ocorre quando as bactérias deixam de responder aos antibióticos, tornando-os ineficazes para utilização terapêutica.

Sem ações a nível global poderemos assistir a uma era “pós-antibióticos” em que muitas infeções comuns (incluindo infeções transmitidas pelos alimentos como a salmonelose) podem causar elevadas taxas de mortalidade. O aumento da resistência aos antibióticos a nível global é uma das maiores ameaças à saúde humana e animal, mas também à segurança dos nossos alimentos e ao meio ambiente, requerendo uma abordagem multissetorial designada de “One Health” para a sua contenção.

Atualmente, diversas entidades internacionais (WHO, FAO, OIE, EC, EFSA, ECDC, CDC) e nacionais (DGS) consideram a resistência aos antibióticos uma das maiores ameaças à saúde pública global. Um relatório publicado em 2014 projeta mesmo que em 2050 a resistência aos antibióticos cause a morte a 10 milhões de pessoas por ano, mais mortes do que outras doenças como o cancro e a diabetes, caso não seja implementada uma resposta global ao problema.

Mais recentemente (Novembro 2018), o ECDC reportou que na UE morrem anualmente 33.000 pessoas de infeções devido a bactérias resistentes aos antibióticos, associadas particularmente às unidades de cuidados de saúde, sendo o impacto equivalente a três infeções importantes (HIV, tuberculose e gripe).

Adicionalmente, também as infeções transmitidas através da cadeia alimentar (ex. salmoneloses e campilobacterioses mais severas) estão cada vez mais difíceis de tratar (infeções mais prolongadas e mais insucessos terapêuticos) à medida que os antibióticos ficam menos eficazes, sendo proposto pelo CDC que 1 em cada 5 infeções por bactérias resistentes são causadas por bactérias dos animais e dos alimentos.

De facto, a resistência aos antibióticos é considerada correntemente uma prioridade em segurança alimentar, pelo que todos os profissionais desta área devem conhecer o seu impacto, como se dissemina através da cadeia alimentar e qual o papel que podem desempenhar para a sua prevenção e controlo.

Causas da resistência aos antibióticos

A resistência aos antibióticos é um fenómeno que ocorre naturalmente, mas tornou-se um problema complexo e multifatorial agravado pela utilização incorreta de antibióticos em humanos e animais. Entre as diversas causas do aumento da resistência aos antibióticos encontram-se a prescrição excessiva de antibióticos, interrupção do tratamento, ineficiente controlo de infeções em unidades de cuidados de saúde, mas também o uso excessivo dos antibióticos na produção animal (terrestre/aquática) e agrícola, e higiene e condições sanitárias deficientes.

De facto, a maioria das classes de antibióticos críticas para o tratamento de infeções em medicina humana é também utilizada nos animais, estimando-se que na UE cerca de 70% dos antimicrobianos são vendidos para a produção animal. O uso excessivo e inadequado de antibióticos na produção animal/agrícola intensiva, assim como as práticas de higiene deficientes na cadeia alimentar, estão diretamente associadas com a emergência da resistência em bactérias zoonóticas patogénicas e com a sua disseminação da produção animal ao Homem através da cadeia alimentar (alimentos de origem animal e vegetal), como é exemplificado em Salmonella nas aves e nos suínos.

O risco é particularmente elevado em países onde os fatores que favorecem a disseminação da resistência aos antibióticos (ex. ausência de regulação do uso de antibióticos na produção animal/agrícola, condições sanitárias inadequadas) são significativos, podendo contribuir para o agravamento da situação a nível global através do comércio de animais e de alimentos, como recentemente detetado num estudo em alimentos importados para a EU.

O que podemos fazer ?

Para reduzir o impacto e limitar a disseminação da resistência aos antibióticos, toda a Comunidade, incluindo os Nutricionistas, quer como profissionais de saúde, quer como profissionais do setor alimentar, tem um papel a desempenhar. Para os profissionais de saúde são fundamentais as medidas para prevenção da transmissão de infeções (profissional-paciente), tais como a promoção da lavagem correta das mãos e a manutenção da vacinação atualizada.

No setor da produção de alimentos e refeições é fundamental a promoção e aplicação de boas práticas (desde a produção primária, processamento e distribuição dos alimentos até ao consumidor), de modo a reduzir a transmissão de infeções através dos alimentos e assim prevenir e controlar a disseminação da resistência aos antibióticos na cadeia alimentar.

Cinco Chaves para uma Alimentação Mais Segura

Neste sentido, a WHO recomenda que toda a comunidade conheça e siga as “Cinco Chaves para uma Alimentação Mais Segura” – manter a limpeza, separar alimentos crus de alimentos cozinhados, cozinhar bem os alimentos, manter alimentos a temperaturas seguras, usar água e matérias-primas seguras, devendo o nutricionista exercer um papel relevante na alteração de comportamentos da população, quer através de educação dos manipuladores de alimentos, quer dos consumidores.

Adicionalmente, a WHO recomenda a escolha de alimentos que tenham sido produzidos sem o uso de antibióticos (para promoção do crescimento dos animais e para prevenção de doenças em animais saudáveis), cabendo às empresas e seus profissionais e ao consumidor a seleção e valorização desse tipo de produções. A campanha “Antibiotic Footprint”  da BSAC é um exemplo ao pretender reconhecer iniciativas que promovam o uso responsável de antibióticos em humanos, animais e agricultura. De facto, a utilização responsável dos antibióticos na cadeia alimentar (animais e agricultura) promove a sustentabilidade e a segurança dos alimentos, para além de poder salvar vidas.

As campanhas de educação e projetos educativos

Adicionalmente, os planos estratégicos globais de diversas entidades para contenção da resistência aos antibióticos recomendam que se aumente a consciencialização e a compreensão do problema através de campanhas de educação.

Portugal é um dos países da UE onde existe um maior desconhecimento sobre antibióticos (ex. mais de 60% não sabe que os antibióticos não matam vírus nem que os antibióticos para promoção do crescimento em animais de produção foram banidos da UE) (Resultados do Eurobarómetro sobre resistência aos antibióticos), pelo que cabe a todas as Organizações contribuir para alterar comportamentos de risco. Neste sentido, também a Universidade tem responsabilidade na educação dos futuros profissionais da área da saúde e na transferência desse conhecimento para toda a Comunidade, podendo desempenhar um papel relevante através da implementação de projetos que envolvam a população como pretende ser o projeto MicroMundo@UPorto. 

Adaptado da publicação no Jornal provisório da AEFCNAUP

Escrito por

Resistência aos Antibióticos 1
Patrícia Antunes
Nutricionista. Professora Auxiliar na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto | Website

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